A ineficácia do diálogo

Elenco de O Som e a Fúria – Um Estudo sobre o Trágico, montagem da Definitiva Cia. de Teatro (Foto: Marilia Gurgel)

A incomunicabilidade está no centro de O Som e a Fúria – Um Estudo sobre o Trágico, encenação da Definitiva Cia. de Teatro em cartaz no Teatro Oi Futuro, dirigida por Jefferson Almeida e com dramaturgia de Rosyane Trotta. Os atores/personagens mais monologam que dialogam e, mesmo quando a estrutura do solilóquio é colocada em suspenso, a interação não acontece. As supostas conversas se dão por meio de rompantes catárticos, de mediação insuficiente para apaziguar o embate acirrado ou de tradução distanciada que esclarece para o público – e não para os interlocutores, que falam idiomas diferentes – a violência de uma ação.

O desencontro, marcado por atritos contundentes, diz respeito aos dias de hoje. Há uma intenção de problematizar a associação entre o trágico e tempos remotos por meio de um trabalho cujo foco recai sobre o aqui/agora, conforme realçado por sons de tiros e menções a manifestações de exclusão, a explosões de preconceito e ao governo brasileiro. A citação a Gota D’Água, peça originada da leitura de Chico Buarque e Paulo Pontes de Medeia, de Eurípedes, se impõe mais como valorização de um representante emblemático da atualização da tragédia clássica do que como um elemento de ligação com questões ressaltadas no texto de O Som e a Fúria. A correspondência entre Gota D’Água e “temas” como a falta de escuta num mundo atravessado pela intolerância e a dor das mães que tiveram seus filhos assassinados – corpos que permanecem ocultos debaixo da terra, símbolos da verdade convenientemente abafada – soa algo genérica, abrangente.

O Som e a Fúria confronta o público com a impossibilidade de estabelecer convivências. Não parece propor o diálogo ao espectador, mas constatar conflitos sem solução, a exemplo da imagem da trincheira formada por cadeiras, objetos manipulados no sintético cenário de Taísa Magalhães. Não há desarmamento ao longo da apresentação. Os instantes em que os atores se chamam pelos próprios nomes ou pedem aos técnicos alterações na iluminação, na música ou na projeção vocal foram evidentemente programados – e não há ambição de disfarçar a construção.

A eventual originalidade de O Som e a Fúria não reside no movimento de presentificação da tragédia, mas na concepção musical de Renato Frazão, que, em determinados momentos, contrasta provocativamente com a dramaturgia. Outros componentes da encenação também sinalizam certa singularidade, como os figurinos desconexos, que subvertem o tradicional, de Arlete Rua e Thaís Boulanger e a iluminação que delimita formas retangulares, concretas, de Luiz Paulo Barreto. O elenco – composto por Betho Guedes, João Vitor Novaes, Livs Ataíde, Marcelo de Paula, Paula Sholl e Tamires Nascimento, com destaque para a última no solilóquio inicial – demonstra adesão à natureza inquieta de uma montagem que frisa sintonia com a contemporaneidade.

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