Mais inquietação do que pulsação

Rita Guedes e Leticia Isnard em Uma Relação tão Delicada (Foto: Jacson Vogel)

Uma Relação tão Delicada, texto de Loleh Bellon, serve de veículo para duas atrizes interpretarem, por meio de recursos de composição, personagens em fases variadas da vida, e tende a suscitar reverberação emocional na plateia, na medida em que a autora reúne diversas características da relação entre mãe e filha imediatamente identificáveis. As personagens têm nomes que as particularizam – Charlotte e Jeanne –, mas ecoam no público como mãe e filha universais. Foi o que aconteceu com a bem-sucedida encenação dirigida por William Pereira, com Irene Ravache e Regina Braga, há três décadas. Agora, uma nova montagem desembarca no Rio de Janeiro, no Teatro Vannucci, conduzida por Ary Coslov, com Rita Guedes e Leticia Isnard.

Apesar de não se tratar de um texto especialmente marcante, em termos de criação artística, Uma Relação tão Delicada não é destituído de méritos. Bellon sugere espelhamentos ao destacar situações parecidas vivenciadas pelas personagens em momentos distintos de suas trajetórias. Na estruturação dramatúrgica, essas situações são mostradas em sequência ou distanciadas, fazendo com que o espectador estabeleça ligação entre as cenas. O espelhamento é elemento frisado na montagem de Ary Coslov, seja por meio da similaridade dos figurinos de Tiago Ribeiro usados pelas atrizes, seja pela inclusão do próprio espelho, simbolizado apenas pela moldura, na cenografia de Marcos Flaksman.

A opção pelo espelho vazado coloca o realismo em questão. Se por um lado o espectador se depara com a configuração tradicional de um quarto, tendo a cama como móvel central, por outro essa localização concreta é relativizada, principalmente pela parede de fundo, composta por uma pequena janela, que remete a uma espécie de bunker. Essa percepção ganha força com a contextualização de parte da história na Segunda Guerra Mundial – responsável pela adaptação da peça, Rita Guedes fez bem em não substituir a ambientação original –, mas a concepção visual transcende a perspectiva histórica e investe na abstração em imagens potencializadas pela iluminação de Aurélio de Simoni. Ainda que os bombardeios ocorridos durante a guerra sejam ilustrados, com evidência, por meio de um breve lusco-fusco, as alterações de cor na janela não expressam de forma direta às transições de luz ao longo do dia. Talvez porque a janela não se limite a sinalizar a incidência do mundo externo no convívio das personagens em espaços fechados.

O realismo também é suavizado, mesmo que de maneira discreta, nos instantes em que as atrizes seguem marcação frontal e falam de frente para o público. Mas a encenação, propositiva em determinados aspectos, é conduzida de modo plano, sem mudanças de ritmo e intensidade. A uniformidade esfria o impacto sobre a plateia. As atrizes, a despeito das interpretações dedicadas, não chegam a romper com a linearidade. Rita Guedes incorre em certo artificialismo na construção física da mãe idosa, problema minimizado nas cenas em que faz a personagem mais jovem, enquanto Leticia Isnard transita com mais naturalidade entre a filha na infância e na vida adulta.

Essa versão de Uma Relação tão Delicada oferece uma leitura dotada de algum grau de inquietação para o texto de Loleh Bellon, a julgar pela valorização do espelhamento entre as circunstâncias atravessadas pelas personagens e pela suspensão parcial da gramática do realismo. A montagem, porém, se ressente de uma pulsação mais sanguínea, vibrante.

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