Um Tchekhov exteriorizado

Rodrigo Ferrarini e Camila Pitanga em Por que não Vivemos?, espetáculo da companhia brasileira de teatro em cartaz no CCBB (Foto: Nana Moraes)

Para a encenação de Platonov, obra da fase inicial de Anton Tchekhov, Marcio Abreu buscou imprimir energia juvenil que se materializa na movimentação feérica do elenco e na determinação em praticamente fundir o espaço de apresentação com o do público. Os atores circulam entre as fileiras de cadeiras do Teatro I do Centro Cultural Banco do Brasil – há, inclusive, um sofá instalado entre as poltronas, onde acontecem passagens da montagem – e, durante o primeiro ato, parte dos espectadores senta em cima do palco, com a cena transcorrendo entre as duas plateias, dispostas uma de frente para a outra.

Essas características evidenciam um desejo em realizar um espetáculo que estabeleça uma comunicação direta com o espectador. Não por acaso, impera, na tradução coloquial de Pedro Augusto Pinto e Giovana Soar, a fala simples, o afastamento do tom clássico tradicional. Mas o resultado desse novo trabalho da companhia brasileira de teatro parece norteado pela crença de que a plateia contemporânea necessita de estímulos para além do contato com a palavra, perspectiva confirmada no decorrer do espetáculo e que culmina na celebração festiva que encerra o primeiro ato. Há uma proposta exteriorizada de conexão com o público. O aroma de inventividade fica relativizado pela reedição de procedimentos empregados por Marcio Abreu em espetáculos anteriores, principalmente Nós, do Grupo Galpão, como a repetição cada vez mais acelerada de falas e movimentos e a integração do espectador na cena.

Em Por que não Vivemos?, não se detecta a preocupação em caminhar no sentido de uma aproximação com a atmosfera tchekhoviana, mesmo que esta não deva ser limitada a tópicos que, independentemente da pertinência, são sempre frisados, como a importância da vida interior dos personagens em detrimento da sucessão de fatos cotidianos. Distante de sutilezas e silêncios preenchidos, o espetáculo é marcado por caráter ruidoso que se justifica, parcialmente, por meio de personagens que não se escutam, que existem em frequências distintas e, por isso, falam uns por cima dos outros. A dispersão se estende a áreas inacessíveis ao público, a julgar pelo som de festa que ecoa do fundo do palco, atrás das fileiras onde alguns espectadores estão acomodados, e pelo eventual extravasamento da ação, ultrapassando as bordas do teatro, no que se refere aos instantes em que os atores saem do teatro rumo ao foyer do CCBB.

No segundo ato, os atores despontam no palco com projeções dos seus rostos, recurso que sugere um descompasso entre a realidade do mundo e a psíquica, individual. A agonia surge estampada nos corpos de personagens assombrados por relações desgastadas, pelo conflito entre passado e presente, pelas frustrações de existências abortadas, elementos centrais na obra de Tchekhov, particularmente destacados nos textos futuros. A mesa do primeiro ato – onde plantas que simbolizam ambiente bucólico, contrastante, porém, com o vigor febril dos atores/personagens – é trocada por espacialidade despojada (cenografia de Marcelo Alvarenga), transição acompanhada pela iluminação (de Nadja Naira), que, substitui as gradações dos encontros passionais da primeira parte por uma luz mais dura, menos afetiva, aridez estética, contudo, utilizada para incluir a plateia. O elenco (formado por Camila Pitanga, Cris Larin, Edson Rocha, Josi Lopes, Kauê Persona, Rodrigo Bolzan, Rodrigo Ferrarini e Rodrigo dos Santos) revela sintonia e plena adesão à proposta do espetáculo, demonstrando controle sobre personagens desmedidos, repletos de rompantes, mergulhados em estado catártico.

Por que não Vivemos? deixa a impressão de ter sido concebido a partir da ansiedade do grupo em conquistar o espectador de hoje. Para tanto, parece investir em concessões à dinâmica dos dias que correm ao invés de enfrentar as dificuldades de fazer teatro na era do vapt-vupt. A informalidade flagrante nas interpretações dos atores não está desvinculada de uma construção e de uma execução fluente, mas o apelo a atrativos externos que atravessa a encenação reduz a consistência da experiência.

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