Crônicas afetivamente embaralhadas

Pedro Paulo Rangel em O Ator e o Lobo (Foto: Gisela Schlogel)

Há uma intencional mistura de identidades em O Ator e o Lobo, encenação que cumpriu temporada até o último domingo no Teatro Poeira. Pedro Paulo Rangel embaralha textos do escritor português António Lobo Antunes e recordações sobre sua própria trajetória, literatura e relato pessoal, sem investir numa alternância marcante de registros para diferenciar os planos. Em determinados momentos, a distinção fica clara, mas todas as narrativas são apresentadas no palco pelo mesmo habilidoso contador de histórias, qualidade de Rangel, que, com sua fala de musicalidade específica, envolve a plateia de maneira calorosa e intimista.

A decisão de entrelaçar as suas experiências com as de Lobo Antunes é despretensiosamente sugerida no início da montagem dirigida por Fernando Philbert, quando o ator entra em cena, começa a dizer o texto com sotaque português para, em seguida, anunciar que não irá recorrer a esse recurso – ainda que retome a composição de voz, em breve instante, na segunda metade da sessão. Seja como for, Pedro Paulo Rangel não se propõe a incorporar, encarnar, Lobo Antunes. Também não envereda por um formato de espetáculo comemorativo de carreira. Adota uma terceira via: revela sobre si através do outro, característica central do ofício do ator.

Rangel traz à tona crônicas saborosas e fatos importantes do percurso artístico, evocados como lembranças que permanecem vivas, apesar de remeterem à morte de um tempo mais amável e efervescente sob perspectiva cultural. Por meio do espetáculo A Aurora da Minha Vida, de Naum Alves de Souza, chama atenção para uma época em que o teatro reverberava com muito mais força na sociedade. E as imagens do Rio de Janeiro antigo projetadas na cortina de tiras provocam nostalgia quase inevitável. Pedro Paulo Rangel conhece o mundo descrito por Antonio Lobo Antunes – a afinidade de geração já desponta como elemento comum. Não por acaso, o palco é ocupado por um fragmento de espaço familiar (cenografia de Fernando Mello da Costa) e tonalidades melancólicas e vibrantes de uma iluminação afetuosa (a cargo de Aurélio de Simoni).

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