Espaço real e imaginário

Laura Nielsen em Dentro, montagem em cartaz no Teatro III do Centro Cultural Banco do Brasil (Foto: Thaís Barros)

A espacialidade proposta em Dentro, encenação dirigida por Natássia Vello que comemora os 10 anos da companhia Teatro Inominável, realça questões destacadas ao longo da apresentação. Espaço que se mantém aberto a diferentes arrumações na disposição palco/plateia, o Teatro III do Centro Cultural Banco do Brasil tem sua totalidade intencionalmente reduzida. Os espectadores são acomodados em pequenas arquibancadas que delimitam as fronteiras de uma cena intimista, própria à ambientação evidenciada no texto de Diogo Liberano – o interior de uma casa, apesar da personagem interpretada por Laura Nielsen trazer à tona momentos do passado, transcendendo, imaginariamente, essa localização.

Ao entrar em cena, a atriz, de imediato, quebra a quarta parede ao interagir diretamente com o público. O movimento de inclusão do espectador relativiza ainda mais a demarcação rígida da casa como locação única. Há uma diminuição da hierarquia entre a cena e a plateia – em que pese o fato de a eliminação dessa distância ser impossível – que contrasta com a temática da peça: a mulher escravizada num mundo masculino e, em contrapartida, escravocrata, pelos hábitos de classe que aprendeu a cultivar.

Há também uma suspensão do realismo na situação lançada pelo autor: uma personagem que conversa com suas antepassadas que já morreram. A interessante cenografia de Elsa Romero tensiona o realismo ao se revelar constituída por recortes de espaços aristocráticos, monte de terra simbolizando a necessidade de a personagem dar vazão a uma escavação familiar e correntes, que remetem à violenta opressão, onde são penduradas fotos de mulheres atravessadas pela omissão, pela clausura e pelo autoritarismo.

A personagem revisita a sua história, analisa criticamente, à luz de seu tempo, as posturas das mulheres que a antecederam, e afirma identidade distinta. Contudo, as importantes discussões levantadas na dramaturgia – a desvalorização da mulher numa sociedade controlada pelo homem, desequilíbrio que começou a ser corrigido, sem, porém, que se tenha chegado ao devido ajuste – não vêm acompanhadas de suficiente grau de elaboração artística. Por isso, o texto pode gerar uma sensação de déjà vu, como se apenas confirmasse um pertinente, mas conhecido, discurso.

Laura Nielsen não disfarça certa falta de frescor da peça, em especial nos instantes em que frisa uma adesão emocional da personagem. No entanto, a atriz sustenta o desafio do monólogo, no que diz respeito à segura interação com os espectadores e ao domínio dos procedimentos de uma atuação desarmada, que transita suavemente entre uma aparente não interpretação e as lembranças de mulheres diversas, realizadas sem o investimento em recursos banais de composição.

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