Inquietação no corpo

Alexandre Varella e Patricia Niedermeier em O Censor (Foto: Alvaro Riveros)

A encenação de O Censor, peça do dramaturgo escocês Anthony Neilson, está sendo apresentada na Sala Multiuso do Estação Net Botafogo, atualmente voltada para cursos. A realização de montagens fora do espaço institucionalizado é uma medida saudável num momento em que vários teatros se encontram fechados ou simplesmente deixaram de existir. Deve-se, sem dúvida, reivindicar a reabertura deles e a construção de novos, mas buscar alternativas é aconselhável. Além disso, a concepção desse projeto repousa sobre um desejo de interface entre teatro e cinema. Um dos responsáveis pelo espetáculo é Cavi Borges, que vem, ao longo dos anos, capitaneando filmes de baixo orçamento viabilizados graças à tenacidade, ao espírito de guerrilha, e resistindo com uma das poucas locadoras sobreviventes no Rio de Janeiro – a Cavídeo.

O telão da sala é utilizado na apresentação de um trecho do filme Microcosmos (1996), de Claude Nuridsany e Marie Pérennou, que amplia a discussão sexual entre os passionais personagens de Neilson – o censor e a cineasta determinada a conseguir a liberação de seu filme –, e no destaque a diversas obras interditadas, oprimidas, no decorrer do tempo. Essa panorâmica, proposta pelos realizadores (a montagem é assinada por Borges, Alexandre Varella e Patricia Niedermeier, os últimos dois, ator e atriz do espetáculo), traz à tona a percepção de que o presente não é um instante isolado dentro do processo histórico. Por outro lado, talvez sugira certa equivalência entre passado e presente, como se não considerasse muito as especificidades de cada contexto adverso. Em todo caso, a intenção de chamar atenção para os crescentes obstáculos enfrentados pelos artistas nos dias de hoje soa contundente e oportuna.

A interação entre o censor e a cineasta mantém o espectador em estado de alerta, mas nem sempre parece verossímil. O fato de ele se sentir atraído por ela – e provocado por uma obra que trata o sexo de maneira crua, frontal – faz com que passe da posição de opositor a aliado com rapidez. Ela também demonstra capacidade de radiografá-lo emocionalmente, de dissecar suas motivações, com uma agilidade ainda maior – e, por isso, menos crível. Há mais um problema dramatúrgico: a fragilidade das cenas entre o censor e a esposa. Borges, Varella e Niedermeier resolvem essas passagens de modo excessivamente estático na lateral da plateia, espaço destinado a breves e intimistas contracenas entre o censor e a esposa, enquanto a parte da frente da sala ganha sintética ambientação que remete ao local de trabalho do primeiro. Na apropriação do texto, caberia suprimir ou desenvolver esse elo. Da forma como ficou, limita bastante as chances interpretativas de Emilze Junqueira. Com mais possibilidades, Alexandre Varella e Patricia Niedermeier sustentam a tensão – ele manifestando o constrangimento do censor, bem como a tentativa frustrada de se mostrar no controle da situação, e ela imprimindo a segurança de quem sabe do poder de domínio que exerce sobre o outro.

Entre os dois, o corpo tem lugar central – o dele, retraído, e o dela, libertário. Mas, apesar dos contrastes, as figuras do censor e da cineasta não são unidimensionais. Há um cuidado para não torná-las tão-somente representantes de campos antagônicos, de pontos extremos de uma abordagem maniqueísta, mesmo que ambos evidentemente simbolizem posicionamentos distantes acerca da arte. Dotada de apreciável dose de inquietação, a montagem de O Censor, em que pesem as restrições, tende a sensibilizar o espectador ao articular o original de Neilson com o aqui/agora no mundo e, particularmente, no Brasil.

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