Oportuno sabor saudosista

Paulo Trajano, Diogo Vilela, Carolina Gonzalez e Claudia Ventura em A Verdade, montagem de Marcus Alvisi em cartaz no Teatro Maison de France (Foto: Dalton Valério)

A importância de encenar A Verdade – peça francesa de Florian Zeller, que ganhou montagem dirigida por Marcus Alvisi atualmente em cartaz no Teatro Maison de France – reside no investimento num teatro de mercado de qualidade, que, nas últimas décadas, sofreu estreitamento, perceptível na concentração do entretenimento no gênero musical e na realização de comédias descartáveis. Numa época como a de hoje, marcada por certa desvalorização do chamado teatro de texto, A Verdade conserva oportuno sabor saudosista.

Zeller maneja sem brilhantismo, mas com segurança, a gramática da comédia de enganos por meio das jornadas de personagens envolvidos em relacionamentos extraconjugais. No começo, um homem e uma mulher traem seus respectivos parceiros, sendo que todos – os que traem e os que são traídos – têm convívio social bastante próximo. O público é colocado em posição privilegiada: sabe sobre um vínculo extraconjugal mantido oculto. À medida que a peça avança, porém, as circunstâncias não se mostram tão claras quanto parecem de início.

A lembrança de Assim é (se lhe Parece), de Luigi Pirandello, surge longinquamente, mas Zeller não envereda pelo estímulo a uma reflexão sobre a relativização da verdade. Seu objetivo é mais despretensioso: oferecer ao espectador uma comédia engenhosa e competente. Marcus Alvisi apresenta uma direção simples, o que não significa fácil, sinalizando preocupação em evitar quedas de ritmo no decorrer da sessão.

Cabe apenas mencionar uma exposição da mecânica do humor no trabalho dos atores. Devido à evidenciação de determinados procedimentos (como o aumento no tom da voz), o público pode detectar a proximidade do clímax de uma dada situação e prever que alguma revelação provavelmente será feita. De qualquer modo, o elenco – Diogo Vilela, Claudia Ventura, Paulo Trajano e Carolina Gonzalez – demonstra habilidade no exercício da comédia, em especial Vilela, antigo parceiro artístico de Alvisi, divertido tanto quando porta a palavra quanto nas expressões faciais que compõe para o personagem.

Outro elemento de destaque é a cenografia, criação inspirada de Ronald Teixeira e Guilherme Reis, que divide o palco da Maison de France nos fragmentos de ambientes por onde os personagens transitam, contrastando diferentes estilos arquitetônicos – tudo realçado pela luz aberta, propícia à comédia, de Maneco Quinderé. Em que pesem eventuais restrições, uma montagem como a de A Verdade preenche uma lacuna considerável no panorama teatral do Rio de Janeiro.

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