Corpos e espaços embaralhados

Proposta espacial em evidência em Poses para Dormir, encenação de Diego Fortes apresentada no Museu Oscar Niemeyer durante o Festival de Curitiba (Foto: Amanda Vicentini)

Existe uma fronteira rígida – e incomum – demarcando o espaço do público e o da encenação de Poses para Dormir, apresentada no Museu Oscar Niemeyer durante a última edição do Festival de Curitiba. Acomodados em almofadas, os espectadores assistem à montagem dirigida por Diego Fortes para o texto de Lola Arias de maneira próxima, mas a partir de uma separação delimitada de modo bastante concreto por meio de telas de vidro, elemento mais sólido que a tradicional cortina. A concepção cenográfica também separa, de forma evidente, campos de ação: dois apartamentos – num deles vive um casal e no outro, pai e filha.

Aos poucos, porém, o rigor que norteia essa compartimentação é suspenso. As relações entre os personagens – um piloto e uma dona de casa, um escritor de contos eróticos que assina sob pseudônimo (o mesmo nome da mulher do apartamento ao lado) e sua filha – embaralham uma organização pré-estabelecida ao experimentarem possibilidades de contato afetivo/sexual distintas da ordem determinada. A clareza inicial se dissolve ao longo da encenação, em sintonia com personagens que talvez tenham dificuldade para se observarem de fora.

As divisórias se mostram insuficientes diante da radiografia de personagens que revelam subjetividades deslocadas no que diz respeito tanto aos seus próprios corpos quanto ao período temporal algo indefinido (a visualidade da cena sugere um futuro vintage) no qual estão inseridos. As duplas de Arias parecem existir no descompasso entre o romântico e o pornográfico, o passado e o futuro, a alma e o corpo, a adesão ao establishment e a contestação do sistema.

Há ainda uma necessidade de se desconectar do real, às vezes com radicalidade. Um personagem tem sonhos violentos ou apaziguadores com a esposa e com mulheres diversas. A esposa dele dorme durante quase todo o dia. O vizinho tenta constantemente cometer suicídio. O registro interpretativo do elenco (Giuly Biancato, Guenia Lemos, Richard Rebelo e Diego Fortes), não por acaso, se afasta, em graus variáveis, da composição realista por meio de atuações estilizadas, tendência perceptível, em particular, nos trabalhos vocais e nas construções de fisicalidades que suscitam uma dose de estranhamento.

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