Teatralidade e excessos no percurso de Norma Desmond

Marisa Orth e Julio Assad em Sunset Boulevard, espetáculo em cartaz no Teatro Santander (Foto: Marcos Mesquita)

SÃO PAULO – A liberdade exercida na encenação de musicais estrangeiros de grande porte é variável. Em determinadas produções, os artistas têm a possibilidade de realizar apropriações do material de origem; em outras, a criação é balizada por contratos que limitam, em medida considerável, a autoria. A montagem de Sunset Boulevard, dirigida por Fred Hanson, não parece atada a um formato engessado. Certa flexibilidade é perceptível na fluente versão brasileira de Mariana Elisabetsky e Victor Mühlethaler para a música de Andrew Lloyd Webber (com letras de Christopher Hampton e Don Black) e na concepção espacial que toma conta do palco do Teatro Santander.

A referência ao cinema impera na cenografia de Matt Kinley, estrutura sólida inspirada no desenho de um rolo de filme. Título original de Crepúsculo dos Deuses – célebre filme de Billy Wilder, base desse musical –, Sunset Boulevard gira em torno de Norma Desmond, atriz do cinema mudo que caiu no ostracismo ao não conseguir atualizar o seu registro interpretativo na passagem para o cinema falado. Abandonada pelos fãs e pela indústria, ela sonha retomar o antigo estrelato, chance que encontra na parceria acidental com o roteirista Joe Gillis, com quem se envolve amorosamente. Ao deixar de ser o centro das atenções, Desmond se enreda num mundo de ilusão alimentado, com intuito protetor, por seu mordomo e primeiro marido, Max von Mayerling (no filme de Wilder, papel desempenhado pelo cineasta Erich von Stroheim). A figura de Desmond transcende o universo cinematográfico, por mais importante que este seja em sua trajetória (Sunset Boulevard evoca os primórdios dessa arte por meio de citações a diretores como Cecil B. De Mille – inclusive, personagem do filme/peça, interpretado pelo próprio na produção de Wilder – e D.W. Griffith). Afinal, Desmond, como tantas personagens/pessoas, sucumbe emocionalmente, evitando ao máximo constatar que o público a esqueceu.

Imponente, a cenografia esbarra em alguma indefinição: o espaço destinado ao escritório da Paramount é simbolizado por uma mesa; mas o mesmo critério não é adotado para outras áreas do palco que representam ambientes diversos. Soa estranha a disposição do escritório ao lado do quarto ocupado por Gillis na mansão de Desmond, delimitado numa pequena varanda. A maior parte do espaço reconstitui sinteticamente os cômodos da propriedade de Desmond – a ampla sala, embaixo, e o quarto, no andar de cima do cenário –, contextualização complementada por projeções bem executadas. O espaço, contudo, não se encerra numa leitura realista, tendo em vista as cenas localizadas no passado, de visualidade uniformemente acinzentada, que reiteram de modo desnecessário os acontecimentos da juventude de Desmond. Apesar das restrições, há oportunas soluções teatrais, como o movimento dos carros sugerido por meio da manipulação de refletores e a construção da imagem do carro de Desmond através da junção de partes de um sofá.

Existem relativamente poucos personagens de fôlego em Sunset Boulevard e, assim, o trabalho com o elenco se divide entre o esforço de obter uma unidade de conjunto e a condução de atores encarregados dos papéis mais destacados. Esses últimos nem sempre extraem o melhor rendimento dos personagens. Marisa Orth tem presença segura no palco, se impõe ao projetar o glamour e a autoridade da estrela, mas não alcança a dimensão trágica da solidão de Norma Desmond, a julgar pela cena final. Julio Assad, em que pese a bela voz, se mostra bastante linear na pele de Joe Gillis. Eduardo Amir, alternante de Daniel Boaventura como Max von Mayerling, imprime participação adequadamente contida. Lia Canineu cumpre com correção as exigências do papel de Betty Schaefer.

Essa versão de Sunset Boulevard é prejudicada por excessos ilustrativos e atuações irregulares. Mas vence desafios dignos de nota, em especial no que diz respeito à esfera musical, valorizada pela orquestra regida por Carlos Bauzys, também responsável pela direção musical.

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