A morte no teatro

SÃO PAULO – No início de A Repetição. História(s) do Teatro (I), espetáculo da programação da Mostra Internacional de Teatro (MIT-SP), atores falam sobre a dificuldade de entrar em cena. Pouco menos de duas horas depois, perto do encerramento da montagem de Milo Rau no Auditório Ibirapuera/Oscar Niemeyer, afirmam que o mais difícil é o final: a morte. É como se os atores lembrassem que o teatro é uma arte que morre todas as noites diante do espectador, na medida em que nunca mais conseguirão fazer uma apresentação idêntica a que acabaram de realizar. Em teatro, não há repetição possível. A impotência frente à morte é tema dessa encenação, que evoca o assassinato do jovem homossexual Ihsane Jarfi, na cidade belga de Liège, em 2012, após ser torturado por quatro homens ao sair de uma festa. Em destaque, o provável terror sentido por Jarfi ao tomar consciência de que iria morrer.

Por meio da consciência em relação à morte – o fim da vida ou do espetáculo –, Milo Rau conjuga realidade e teatro. Os integrantes do elenco da montagem se debruçaram sobre a tragédia de Jarfi através de visitas à prisão, contato com pessoas próximas e presença no julgamento dos assassinos, segundo informam, e questionam seus limites em cena e também os limites da cena. Colocam o espectador diante de imagens filmadas, e projetadas numa tela, que, apesar da opção pelo preto e branco, transmitem a sensação de real, contrastadas com as cenas feitas no palco, que revelam, em certo grau, o processo de construção, a mecânica, do trabalho. Ainda que o cinema seja uma manifestação mais artificial (no que diz respeito à dependência de uma aparelhagem), o teatro é que desponta, nesse espetáculo, como uma arte mais técnica, fria. A articulação proposta entre as duas artes remete ao impacto sofrido pelo teatro realista diante do advento do cinema, particularmente na transição da fase muda para a sonora.

Acerca da interface entre teatro e cinema, característica constante em encenações selecionadas para a MIT ao longo dos anos, há um jogo ambíguo de aproximação e descolamento. Por um lado os atores procuram espelhar as imagens projetadas por meio da reprodução fidedigna de movimentos; por outro, a realização das mesmas cenas é abreviada, sintetizada, simplificada, no palco. Através das projeções, Milo Rau promove uma fusão entre tempos diversos ao mesclar imagens previamente gravadas com registradas no momento, em cores, por um cinegrafista presente no palco, referentes a depoimentos dos atores sobre a própria profissão.

A Repetição. História(s) do Teatro (I) entrelaça, de maneira instigante, a narração e a interpretação da morte de Jarfi, a influência documental e a inevitável apropriação ficcional, cinema e teatro, passado e presente, cor e p&b, tensionando fronteiras a partir de questões centrais como “Por que você faz teatro?”.

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