Proposta aparentemente árida gera efeito hipnótico

Cacá Carvalho em Próxima Estação – Um Espetáculo para Ler, em cartaz no Mezanino do Sesc Copacabana (Foto: Lenise Pinheiro)

O texto de A Próxima Estação – Um Espetáculo para Ler foi concebido pelo autor italiano Michele Santeramo, como o próprio título evidencia, para ser lido no palco. Trata-se de uma proposta que tende a distanciar o espectador. A presença de um ator, com roupa neutra, lendo um texto diante da plateia parece decorrer de uma proposição artística intencionalmente fria. No entanto, a leitura, articulada à projeção das imagens criadas pela artista plástica e performer também italiana Cristina Gardumi e emoldurada por trilha sonora suave, adquire efeito algo hipnótico junto ao público.

Santeramo, que assina a direção da encenação em cartaz até domingo no Mezanino do Sesc Copacabana, mostra, em A Próxima Estação, diferentes estágios do relacionamento conjugal entre Violeta e Massimo, revisitado a cada dez anos, entre 2015 e 2065 – no começo eles têm 30 anos e, ao final, 80. Apesar do desgaste no casamento, continuam vivos no olhar do outro e conservam saudável dose de idealização no modo como se enxergam mutuamente. Os personagens são apresentados como indesejados pelos familiares e deslocados na época em que vivem (“corpos do século passado”), que se torna estranha para o espectador ao avançar para o futuro. O descompasso de Violeta e Massimo em relação ao mundo é valorizado por suas imagens, que mesclam o humano e o animal, nas belas ilustrações de Gardumi, repletas de cores intensas de desenhos infantis, complementadas por legendas que traduzem tanto ações quanto sentimentos.

Cacá Carvalho adota registro interpretativo exteriorizado, a julgar pela composição das vozes de Violeta e Massimo, que sofrem alterações para assinalar a passagem do tempo, e pela determinação em realçar, em momentos ocasionais, as sílabas das palavras, a forma de dizer. A dificuldade em imprimir organicidade à construção, principalmente vocal, não chega a se constituir como um obstáculo à apreciação do espectador, mas talvez o ator devesse buscar entonações menos marcadas, mais sutis, para estabelecer uma maior sintonia com o teor sugestivo do trabalho.

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