Encenação em tom maior

Ricardo Tozzi e Reynaldo Gianecchini em Os Guardas do Taj (Foto: João Caldas)

Os Guardas do Taj valoriza o que está interditado à visão, constatação que vem à tona na situação-base escolhida pelo dramaturgo americano Rajiv Joseph: dois guardas, Humayun e Babur, são proibidos de olhar para o Taj Mahal, às vésperas da inauguração. Quando um deles desobedece a ordem, o fascínio diante do que vê é simbolizado por meio de uma iluminação intensa, explodida, recurso empregado uma vez que a concretização da imagem é evidentemente impossível no teatro, assim como a dos pássaros descritos no texto, destacados no espetáculo através de projeção estilizada (a cargo do Estúdio Bijari).

Diante da inviabilidade de expor as imagens reais – ao espectador e, ocasionalmente, aos personagens –, a montagem de João Fonseca e Rafael Primot, em cartaz no Teatro XP Investimento, procura sugeri-las por meio das criações artísticas que constituem a cena. A teatralidade do espetáculo fica patente na cenografia (de Marco Lima), na qual imperam paredes aparentemente pesadas que, manipuladas, localizam os diferentes ambientes onde a história se desenrola, e na iluminação (de Daniela Sanchez), que lança proposições em relação ao não-visto. Mas a falta de acesso às imagens poderia ter encaminhado os diretores para uma concepção mais intimista, a começar pelo espaço em que o espetáculo está sendo apresentado, considerando ainda que a peça de Joseph, à medida que avança, realça o modo como os acontecimentos ecoam internamente nos personagens.

Ao ter sido pensada para uma espacialidade dotada de certa amplitude, a encenação não potencializa tanto a desestabilização de personagens cada vez mais assombrados – no caso de Humatun, pelos conflitos que atravessa no desdobramento de seu vínculo com Babur e no deste, pela implacável reverberação interior do ato cruel que pratica. Uma maior proximidade da cena também permitiria ao espectador ser mais impactado pela repercussão contundente das atitudes dos personagens nos seus corpos (e nos dos outros). As mutilações que executam, em virtude de arbitrárias e violentas determinações externas (as quais ambos estão sempre submetidos), espelham suas individualidades oprimidas, inviáveis de serem integralmente vivenciadas. Definidos com exatidão na longa cena inicial, os corpos dos personagens (austero de Humayun, descontraído de Babur) vão sendo desconstruídos durante o espetáculo.

Esse desenho contrastante é, em algum grau, suavizado no decorrer da peça, movimento que norteia as interpretações dos atores. Reynaldo Gianecchini se apropria da rigidez de Humayun numa atuação marcada por uma composição física enrijecida e por uma autoridade restrita ao tom severo que confere às palavras. Apesar de o texto, na primeira parte, não sinalizar variações, talvez o ator pudesse buscar sutilezas com o intuito de dimensionar o personagem para além da inflexibilidade frisada no original. Mas Gianecchini não permanece limitado ao mesmo diapasão. Projeta com sensibilidade o estado crescentemente frágil do personagem. Ricardo Tozzi populariza Babur (tendência perceptível na tradução e adaptação, funções de Rafael Primot), seja pela coloquialidade da fala, seja pela maleabilidade do corpo, para torná-lo empático diante do público.

Os Guardas do Taj se ressente de uma idealização menos expansiva na escala e na dosagem emocional (a cena, às vezes, se aproxima do grito). Há, porém, muitos méritos referentes ao acabamento da montagem (cabe elogiar as mencionadas cenografia e iluminação e mais os figurinos de Fabio Namatame). Nesse sentido, o espetáculo revela uma espécie de paradoxo: uma de suas maiores qualidades (o louvável padrão da produção) parece ser um de seus maiores problemas.

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