Suburbano coração

Gustavo Gasparani e Ana Velloso no musical em cartaz no Teatro Net (Foto: Renato Mangolin)

Em Zeca Pagodinho – Uma História de Amor ao Samba, musical em cartaz até o próximo domingo no Teatro Net, Gustavo Gasparani subverte o tradicional formato biográfico por meio de alguns procedimentos. Adota estruturação intencionalmente “caótica” ao invés de apresentar a trajetória do homenageado em ordem cronológica – em determinado momento do espetáculo, inclusive, brinca com o modelo convencional de narrativa ao anunciar a supressão de uma parte de sua história. O objetivo parece estar em priorizar a captação do universo do cantor, em especial no que se refere ao seu inquebrantável vínculo com o subúrbio, em detrimento da obrigação de oferecer ao público o passo a passo de uma jornada.

Além disso, Gasparani desconstrói o Zeca Pagodinho real ao abordá-lo como “o nosso herói” num texto que se assume como fábula. Zeca desponta, nesse sentido, como uma figura que, apesar de real, foi ficcionalizada para o teatro. Gasparani manipula os códigos de realidade e ficção ao promover a “contracena” entre o Zeca verdadeiro, cuja imagem é projetada no telão, no fundo do palco, e o Jessé (seu nome de batismo) da peça interpretado por um ator (Peter Brandão) e evocado nos anos de juventude.

A projeção de Zeca não visa a fornecer ao espectador um depoimento do artista, de modo a frisar a autenticidade dos acontecimentos dispostos em cena, e sim de investir numa interação entre tempos distintos da mesma pessoa. O público se depara na tela com o Zeca do presente, mas o fato de sua imagem ter sido gravada anteriormente sinaliza passado. Em contrapartida, Jessé, no palco, vê Zeca como imagem do futuro que, em certo grau, renega porque teme se afastar de suas origens e sucumbir diante do sistema. O Jessé da ficção é assombrado pelo Zeca da realidade.

Gasparani faz com que o mesmo personagem se contemple de fora, ainda que Zeca e Jessé estejam em dimensões diferentes. Zeca também atravessa o plano da tela onde se encontra confinado e informa Jessé sobre a presença do público; Jessé, que acredita na realidade de sua ficção, não sabe que é personagem de teatro e, consequentemente, sobre a existência de espectadores. Os atores, porém, convidam a plateia a bater palmas durante as músicas desse espetáculo que segue o trem rumo ao subúrbio em andamento acelerado.

O subúrbio vem à tona na lembrança dos ameaçadores Clóvis e, no que diz respeito à cenografia de Gringo Cardia, por meio de painéis de ladrilhos, azulejos, embalagens diversas e da bela concepção artesanal da árvore frondosa que, cercada por vegetação, abriga a roda de samba em Xerém. Os figurinos de Marcelo Olinto realçam cores quentes e tons terrosos, em contraste com o azul e branco de Zeca Pagodinho, em roupas marcadas por discretos bordados. A iluminação de Paulo César Medeiros é mais uma criação que esquenta a cena propõe áreas de concentração dentro do palco. O elenco – liderado por Gasparani e composto por Peter Brandão, Édio Nunes, Ana Velloso, Beatriz Rabello, Ricardo Souzedo, Milton Filho, Wladimir Pinheiro, Flavia Santana, Lu Vieira, Douglas Vergueiro, Bruno Quixote e Psé Diminuta – evidencia entrosamento.

Valorizado pela direção musical e pelos arranjos de João Callado, Zeca Pagodinho – Uma História de Amor ao Samba é um capítulo bem-sucedido na linha de espetáculos repletos de brasilidade capitaneados por Gasparani.

Anúncios

Ato de revelação

Círculo da Transformação em Espelho, montagem de Cesar Augusto, em cartaz no Sesc Copacabana até o próximo dia 29 (Foto: Rodrigo Castro)

Em Círculo da Transformação em Espelho, a americana Annie Baker dá a impressão de se limitar a mostrar o cotidiano de alunos e professora num curso de teatro durante semanas. Destaca os vínculos entre eles – tanto os já existentes, anteriores à realização do próprio curso, quanto os gerados a partir da convivência nas aulas –, evidenciados, às vezes, através de exercícios cênicos. Ainda que não sejam exatamente originais (ao contrário, soam conhecidos dos que têm intimidade com a prática teatral), os exercícios servem à dramaturgia de Baker, voltada, aqui, para a aproximação dos personagens em relação às histórias dos outros e para a exposição pessoal.

Dois exercícios são bastante representativos: aquele em que os alunos escrevem anonimamente um segredo num papel e, em especial, em que cada um interpreta vivências de algum colega, apropriando-se de experiências diversas das suas, operação que pode, inclusive, ser conectada ao ofício do ator. Não por acaso, ao longo da peça de Baker, traduzida por Rafael Teixeira, é possível lembrar de Jogo de Cena, celebrado documentário de Eduardo Coutinho, que entrelaçou depoimentos reais com interpretados. Nem sempre era fácil para o público identificar o depoimento “verdadeiro” e o “falso” devido à qualidade das atuações de quem interpretava a vida do outro.

Como no filme de Coutinho, os personagens de Baker se expressam por meio e por dentro de relatos que não se referem às suas biografias, o que talvez torne o ato de revelação menos transparente. Mas, mesmo que abordassem suas vivências, estariam necessariamente ficcionalizando, na medida em que transmitindo o modo como internalizaram os acontecimentos – e não os acontecimentos puros, sem o filtro da subjetividade. Existem, nesse sentido, interferências, autorias, na maneira como as histórias e, consequentemente, as imagens são difundidas.

Apesar da problematização da transparência, a cenografia de Mina Quental para a montagem dirigida por Cesar Augusto, em cartaz na arena do Sesc Copacabana, reúne espelhos, que refletem as imagens dos personagens e dos espectadores. Unidos, formam uma superfície, separados, porém, pelos atores no decorrer do espetáculo, como identidades repartidas, destituídas de suas totalidades. Há uma proposta de espelhamento entre os espectadores e a posição de espectadores dos alunos diante das apresentações de colegas. Ao invés de valorizar aquele que fala, Cesar Augusto realça, em certos momentos, os que assistem. O cenário se integra à iluminação de Adriana Ortiz, a exemplo da cena final.

A utopia da transparência também vem à tona no registro interpretativo do elenco, sintonizado com uma atuação invisível, espontânea, não armada, mas que encobre uma construção feita durante os ensaios. Alexandre Dantas, Carol Garcia, Fabianna de Mello e Souza, Júlia Marini e, um pouco mais, Sávio Moll demonstram entrosamento com essa vertente. Cesar Augusto imprime, em sua direção, essa invisibilidade apenas aparente, a julgar pelo emprego adequadamente discreto das criações que constituem a cena.