A desconstrução do perfeccionismo

Cena de Adeus, Palhaços Mortos, encenação da Academia de Palhaços que encerra temporada hoje (Foto: Victor Iemini)

Adaptação de Pequenos Trabalhos para Velhos Palhaços, texto do dramaturgo romeno Matei Visniec, Adeus, Palhaços Mortos sugere uma crítica ao mundo contemporâneo, a uma conjuntura que desfavorece artistas, considerados como obsoletos, dispensados, relegados a um provável esquecimento, que se reencontram em busca de uma oportunidade. Essa crítica não desponta por meio da exaltação do circo como manifestação artística artesanal, mas José Roberto Jardim – diretor da montagem da Academia de Palhaços que encerra hoje temporada no Mezanino do Sesc Copacabana – desconstrói o perfeccionismo tecnológico a partir do qual, a princípio, o espetáculo parece ter sido erguido. Há, nesse sentido, uma espécie de paradoxo: a encenação depende e, por outro lado, problematiza a tecnologia, que provoca um deslumbramento vazio, imperante no aqui/agora, a julgar por um comentário irônico, inserido, em determinado momento, em que um dos palhaços reclama da priorização a um teatro ruidoso e escorado em monumentalidade visual.

Também responsável pela adaptação do texto, Jardim confina os atores – Laíza Dantas, Paula Hemsi e Rodrigo Pocidônio – num cubo. Dentro dele, as cenas se sucedem como quadros vivos. As paredes desse espaço recebem projeções variadas (cenografia e vídeo-instalação de BijaRi), que, porém, não apontam para um uso impessoal da tecnologia, na medida em que evidenciam escolhas – no caso, de formatos geométricos. Quando o texto termina ocorre uma suspensão radical da atmosfera criada. Luzes de plateia são acesas e os atores saem das personagens para logo após retomá-las. Mas o texto não é repetido de modo idêntico, e sim de forma condensada. Depois de nova interrupção, o texto é retomado mais uma vez, de maneira ainda mais simplificada, e com o aparato tecnológico (as projeções) em pane. Em Adeus, Palhaços Mortos, a realização rigorosa se estende à própria falha.

Jardim investe num jogo de repetições, talvez para lembrar que a repetição, em si, não é um mecanismo possível. Essa constatação se relaciona com a menção ao dramaturgo Samuel Beckett (citado, particularmente, pela peça curta Eu Não, mas evocado em outros textos de Visniec, como O Último Godot), autor de obras em que as estruturas circulares indicam repetições apenas aparentes. O diretor orquestra partituras – tanto sonora (impositiva, rascante, intencionalmente incômoda, irrepetível tendo em vista que feita ao vivo por Tiago de Mello, autor da trilha) quanto física (ao conduzir os atores para um registro interpretativo artificial, codificado, estilizado, literalmente mascarado, de fisicalidade precisa). O acabamento estético se complementa nos figurinos de Lino Villaventura, exuberantes, mas concebidos a partir da discrição da cor preta, e no visagismo de Leopoldo Pacheco. Adeus, Palhaços Mortos se impõe como uma experiência inegavelmente original.

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Ano de mudança no Prêmio Questão de Crítica

Grace Passô, também contemplada, entrega o prêmio para Teuda Bara (Foto: Divulgação)

Em sua sexta edição, o Prêmio Questão de Crítica passou por mudanças importantes. Diferentemente dos anos anteriores, a cerimônia – que ocorreu no dia 16 de maio, no Sesc Copacabana – não reuniu candidatos nas mais diversas categorias. Coordenado por Daniele Avila Small, o júri – composto, além de Small, por Daniel Schenker, Mariana Barcelos, Patrick Pessoa, Paulo Mattos e Renan Ji – divulgou antecipadamente os vencedores e leu textos analíticos sobre cada um dos contemplados. Não houve a obrigatoriedade de premiar um artista por categoria – por exemplo, duas atrizes (Juliana Galdino, por Leite Derramado, e Teuda Bara, por Nós) tiveram seus trabalhos reconhecidos. As próprias categorias tradicionais (e mesmo aquela criada dentro do prêmio, a de elenco) foram relativizadas. Grace Passô ganhou pelo conjunto da realização de Vaga Carne, na medida em que, além de atuar, assina a dramaturgia e a concepção da encenação. O prêmio também se aproximou, de maneira mais direta, da dança ao contemplar o Festival Panorama e o espetáculo Para que o Céu não Caia, de Lia Rodrigues. A cerimônia foi marcada por dois vídeos – um com depoimentos de vários artistas sobre a ausência de pagamento dos R$ 25 milhões do edital do Fomento aos 204 projetos selecionados e outro em homenagem ao produtor Paulo Mattos, ex-funcionário do Sesc, trazendo à tona os artistas e espetáculos para os quais abriu espaço no decorrer do tempo.

Premiados:

Artur Luanda Ribeiro e André Curti (pela iluminação de Gritos)

Emílio de Mello (pela atuação em Os Realistas)

Felipe Vidal (pela concepção de Cabeça – Um Documentário Cênico)

Festival Panorama (pela importância no cenário artístico do Rio de Janeiro)

Grace Passô (pela realização de Vaga Carne)

Jé Oliveira (pela dramaturgia e encenação de Farinha com Açúcar ou Sobre a Sustança de Meninos e Homens)

Juliana Galdino (pela atuação em Leite Derramado)

Lia Rodrigues (pela concepção de Para que o Céu não Caia)

Marcio Abreu (pela encenação de Nós)

Roberto Alvim (pelas concepções de Cesar: Como Construir um Império e Leite Derramado)

Teuda Bara (pela atuação em Nós)