Clássico sem sinais de reverência

© Anna Clara Carvalho

Carolina Ferman em Um Nome para Romeu e Julieta (Foto: Ana Clara Carvalho)

Dani Lossant apresenta uma releitura dessacralizada de Romeu e Julieta, peça de William Shakespeare, no espetáculo que encerra hoje a temporada no Teatro Ipanema. Trata-se, na verdade, uma nova visita ao mesmo texto encenado pela diretora há dez anos dentro do ambiente universitário.

O investimento numa proposta distante do respeito tradicional ao material original, mas preservando a qualidade poética da tragédia dos jovens amantes de famílias rivais, pode ser percebida tanto na construção cênica quanto no registro interpretativo buscado com os atores.

A concepção espacial, a cargo da própria Lossant, se resume a uma superfície que delimita a área de atuação e a fronteira com os espectadores dispostos no palco do teatro, em formato de semi-arena (o espetáculo, antes, fez temporada na arena da Caixa Cultural). Poucos elementos são utilizados (terra, elástico) e essa proposital escassez gera uma cena potente.

Os atores escrevem nessa superfície, imprimindo marcas de presença no espaço, cada vez mais poluído. Os figurinos de Luci Vilanova exibem evidências de uso e, juntamente com a cenografia, projetam um visual nada asséptico.

A iluminação de Daniela Sanchez se mostra bastante expressiva nos momentos mais concentrados, nos quais imperam tonalidades intensas, mas não necessariamente exuberantes. A trilha sonora de Luciano Corrêa aposta numa fusão de ritmos contrastantes (valsa, funk) e, consequentemente, de tempos diversos.

Há uma atualização que também vem à tona nos trabalhos dos atores, que caminham na contramão da declamação artificial. Diogo Liberano e Carolina Ferman, como Romeu e Julieta, e Andrêas Gatto, Daniel Chagas, Márcio Machado e Morena Cattoni, revezando-se nos demais papéis, dizem bem o texto porque revelam compreensão e apropriação dos sentidos.

A palavra não fica soterrada diante da importância destinada ao corpo; ao contrário, parece valorizada pela direção de movimento de Nathália Mello. Os atores não reverenciam Shakespeare, mas comprovam, por meio de suas atuações, que essas palavras atravessam o tempo e continuam lançando questões pertinentes no mundo de hoje.

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