Os Sonhadores e Auê lideram indicações ao Shell

sonhaIgor Angelkorte, Bernardo Marinho e Juliana David em Os Sonhadores (Foto: Dalton Valério)

Os Sonhadores, transposição para o palco do livro de Gilbert Adair (popularizado pelo filme de Bernardo Bertolucci) em encenação assinada por Viniciús Arneiro, e Auê, musical de Duda Maia, lideram as indicações do Prêmio Shell referentes aos espetáculos do primeiro semestre de 2016. O monólogo Se eu fosse Iracema, dirigido por Fernando Nicolau, com Adassa Martins, e o musical Gota D’Água – a Seco, assinado por Rafael Gomes, concorrem em duas categorias cada.

Indicados:

Autor – Diogo Liberano e Dominique Arantes (Os Sonhadores), Pedro Kosovski, Marcia Zanelatto e Jô Bilac (Fatal)

Direção – Duda Maia (Auê), Viniciús Arneiro (Os Sonhadores)

Ator – Matheus Nachtergaele (Processo de Conscerto do Desejo),         Marcelo Escorel (Vaidades & Tolices)

Atriz – Debora Bloch (Os Realistas), Helena Varvaki (A Outra Casa),          Adassa Martins (Se eu fosse Iracema)

Cenografia – Aurora dos Campos (Os Sonhadores), Adriano e Fernando Guimarães e Ismael Monticelli (Hamlet – Processo de Revelação)

Iluminação – Fernanda e Tiago Mantovani (Estudo para a Missa de Clarice), Renato Machado (Auê)

Figurino – Luiza Fardin (Se eu fosse Iracema), Kika Lopes (Gota D’água – a Seco)

Música – Alfredo Del-Pinho e Beto Lemos (Auê), Pedro Luís (Gota D’água – a Seco)

Inovação – Fernando Libonati e Marco Nanini (pelo espírito empreendedor de investir no próprio setor teatral através do conjunto de iniciativas: Galpão e Garagem Gamboa, Reduto e Hospedaria)

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Urinal e Kiss me Kate vencem Prêmio Reverência

reverenSandra Pêra prestou homenagem à irmã, Marília Pêra, na noite de premiação do Reverência (Foto: Caio Gallucci / Divulgação Prêmio Reverência)

Urinal, espetáculo assinado por Zé Henrique de Paula, e Kiss me, Kate – O Beijo da Megera, da dupla Charles Möeller/Claudio Botelho, dominaram praticamente todas as categorias do Prêmio Reverência, concebido pela produtora Antonia Prado e inteiramente dedicado ao gênero musical. A cerimônia, que tomou conta, na noite da última terça-feira, do Teatro Alfa, em São Paulo, foi apresentada por Totia Meirelles e Daniel Boaventura e prestou homenagem à atriz Marília Pêra.

 Premiados:

Espetáculo – Urinal, o Musical

Direção – Zé Henrique de Paula (Urinal, O Musical)

Autor – João Falcão (Gonzagão, a Lenda)

Ator – José Mayer (Kiss me, Kate – O Beijo da Megera)

Atriz – Laila Garin (O Beijo no Asfalto)

Ator Coadjuvante – Fábio Redkowicz (Urinal, O Musical)

Atriz Coadjuvante – Fabi Bang (Kiss me, Kate – O Beijo da Megera)

Cenografia – Zé Henrique de Paula (Urinal, O Musical)

Figurino – Carol Lobato (Kiss me, Kate – O Beijo da Megera)

Iluminação – Paulo Cesar Medeiros (Nine – Um Musical Felliniano)

Coreografia – Alonso Barros (Kiss me, Kate – O Beijo da Megera)

Direção Musical – Fernanda Maia (Urinal, O Musical)

Design de Som – Marcelo Claret (Kiss me, Kate – O Beijo da Megera)

Especial – Claudio Botelho pelas versões de Kiss me, Kate – O Beijo da Megera

Auê recebe cinco indicações ao Prêmio Cesgranrio

aue2Cena de Auê, indicado nas categorias espetáculo, direção, direção musical, figurino e especial (Foto: Divulgação)

Auê, musical do grupo Barca dos Corações Partidos, dirigido por Duda Maia, lidera o número indicações (cinco) ao Prêmio Cesgranrio de Teatro entre os espetáculos apresentados no primeiro semestre de 2016. Gota D’Água (a Seco), apropriação de Rafael Gomes da célebre obra de Chico Buarque e Paulo Pontes, e Os Realistas, montagem de Guilherme Weber para o original de Will Eno, foram mencionados em quatro categorias cada, seguidos por A Cuíca do Laurindo, espetáculo de Sidnei Cruz também filiado ao musical, Mamãe, solo autobiográfico de Alamo Facó, concebido em parceria com Cesar Augusto (indicado, na Categoria Especial, pela curadoria do Galpão Gamboa), e Os Sonhadores, encenação de Viniciús Arneiro concebida a partir do livro de Gilbert Adair.

Indicações:

Espetáculo – Auê, Mamãe, Nós

Direção – Duda Maia (Auê), Guilherme Weber (Os Realistas), Marcio Abreu (Nós)

Ator – Álamo Facó (Mamãe), Emílio de Mello (Os Realistas), Matheus Nachtergaele (Processo de Conscerto do Desejo)

Atriz – Debora Bloch (Os Realistas), Helena Varvaki (A Outra Casa), Suzana Faini (O Como e o Porquê)

Ator em Musical – Alexandre Rosa Moreno (A Cuíca do Laurindo), Hugo Germano (A Cuíca do Laurindo)

Atriz em Musical – Laila Garin (Gota D’água (a Seco))

Texto Nacional Inédito – Álamo Facó (Mamãe), Diogo Liberano e Dominique Arantes (Os Sonhadores), Rodrigo Portella (Alice mandou um Beijo)

Direção Musical – Alfredo Del-Penho e Beto Lemos (Auê), Luis Barcelos (A Cuíca do Laurindo), Pedro Luís (Gota D’água (a Seco))

Cenografia – André Cortez (Gota D’água (a Seco)), Aurora dos Campos (Os Sonhadores), Daniela Thomas e Camila Schmidt (Os Realistas)

Figurino – Kika Lopes (Auê), Kika Lopes (Gota D’água (a Seco)), Luiza Fardin (Se eu fosse Iracema)

Iluminação – Maneco Quinderé (O Como e o Porquê), Rodrigo Belay (Os Sonhadores), Tomás Ribas (Fatal)

Categoria Especial – Cesar Augusto (pela curadoria do Galpão Gamboa), Wolf Maya (pela construção do Teatro Nathalia Timberg), Elenco de Auê

Solidão em tom menor

urgenteCláudio Dias, Odilon Esteves, Marcelo Souza e Silva, Isabela Paes e Zé Walter Albinati em Urgente (Foto: Carol Thusek)

Há uma tensão entre a agonia contida no título – Urgente – desse novo trabalho da companhia Luna Lunera e a discrição imperante, perceptível no ritmo contemplativo e na construção de uma cena que permanece à meia luz (iluminação de Felipe Cosse e Juliano Coelho). Essa última característica remete a Breu, espetáculo concebido por Miwa Yanagizawa e Maria Silvia Siqueira Campos, do Areas Coletivo de Arte, responsáveis pela condução dessa montagem do grupo mineiro, atualmente em cartaz no Teatro II do Centro Cultural Banco do Brasil (CCBB).

As mencionadas opções que atravessam a encenação parecem ter sido escolhidas com o intuito de potencializar a temática da solidão, de acentuar a sensação de exasperação, comum à galeria de personagens, todos residentes num prédio em ruínas composto por moradias estreitas, pequenos nichos onde cada um instala seu universo específico (a cenografia de Yumi Sakate e do Areas Coletivo de Arte enfileira no palco esses compartimentos claustrofóbicos). Há uma valorização do anonimato através do afastamento das histórias particulares de um caráter especial, por mais dolorosas que eventualmente sejam, perspectiva sintetizada no final, marcado por sobreposição de vozes que se confundem.

A dramaturgia, assinada em parceria pelos integrantes da Luna Lunera e do Areas, reúne fragmentos das vidas dos personagens – o homem endurecido que controla as leis de convivência entre os moradores, a mulher sem família e com problema de audição crescente que deseja engravidar, outros assombrados por antiga rivalidade posta à prova (em cena que fere a contenção do espetáculo) – entrelaçados, ao longo da sessão, com retalhos das vidas dos próprios atores. Os espectadores não têm acesso completo às histórias pessoais reveladas pelos atores (a confissão é sempre interrompida por uma rígida regra de tempo), assim como não são apresentados à totalidade das trajetórias dos personagens, captados numa dada fase de suas existências. Talvez a necessidade de estabelecer elos entre os personagens evidencie certa insegurança do grupo em deixar o público sem, ao menos, um esboço de trama e, nesse sentido, em assumir o vazio, a ausência, como foco da dramaturgia.

Cláudio Dias, Isabela Paes, Marcelo Souza e Silva, Odilon Esteves e Zé Walter Albinati imprimem credibilidade aos seus personagens e realçam a sintonia com o instante imediato ao trazerem à tona, ainda que brevemente, fatos determinantes de suas vidas, dissolvidos na colcha de relatos, formada por acontecimentos luminosos e tristes, desse espetáculo que, em suave tom menor, se impõe em cena.

Luminosidade triste que atravessa gerações

caisMarcelo Morothy e Virgínia Buckowski em Cais ou Da Indiferença das Embarcações (Foto: Ale Cabral)

Em Cais ou Da Indiferença das Embarcações, Kiko Marques, autor do texto, concilia as instâncias do dramático e do épico ao focar nas jornadas de personagens específicos – pertencentes a diferentes gerações que moram em Ilha Grande ou seguem vinculados a essa localidade depois de terem saído de lá – e, a partir das trajetórias deles, apresentar um breve panorama do Brasil ao longo de décadas do século XX (as menções ao presídio, as referências ao comunismo). A história é narrada (por um barco, que “sabe” de tudo, papel de um ator que permanece com o texto na mão, “fora” da cena) e, ao mesmo tempo, vivenciada pelos personagens. No primeiro caso impera o passado (ou o passado presentificado pelo ato de contar), próprio da narração; no segundo, a sintonia com o aqui/agora, com o instante imediato da revelação dos acontecimentos.

A saga não é disposta em ordem cronológica. Há um constante vai e vem de épocas. Mas as três gerações de personagens que integram a “trama”, desencadeada a partir de um relacionamento extraconjugal, são expostas com bastante clareza. Talvez o intuito de Marques com o rompimento da estrutura tradicional, linear, dos planos temporais seja levar o público a perceber que o presente é atravessado por reverberações do passado. O autor propõe articulações entre as gerações e faz com que os personagens contemplem a si mesmos em períodos distintos e se vejam em perspectiva, graças a certo distanciamento histórico. Marques procura destacar personagens atados aos imbróglios familiares. O passado é herança, e, às vezes, âncora. Além disso, a julgar pela cena final, a história não se desenvolve em linha reta, mas se repete, indefinidamente, num círculo sem fim. O autor assina um texto de teor poético, evidenciando que seu objetivo não se resume a mostrar desdobramentos algo novelescos.

Montagem da Velha Companhia dirigida por Kiko Marques (também no elenco), em cartaz apenas até domingo no Mezanino do Sesc Copacabana, Cais ou Da Indiferença das Embarcações prima pelas escolhas discretas, mas expressivas, a exemplo da música suave (tocada ao vivo por Bruno Menegatti e Tadeu Mallaman), da luz triste – dos verões – que domina a cena (iluminação de Alessandra Domingues), dos figurinos que evocam, sem sublinhar, épocas e do cenário sugestivo do cais do título, potencializando a importância do mar para os personagens (ambos os quesitos, criações de Chris Aizner). Não por acaso, o barco adquire especial relevância como elemento simbólico, familiar, afetivo por concentrar tempos.

Apesar das pequenas variações de rendimento, as interpretações dos atores (Alejandra Sampaio, Kiko Marques, Marcelo Diaz, Marcelo Laham, Marcelo Morothy, Marco Aurélio Campos, Maurício de Barros, Patrícia Gordo, Roberto Borenstein, Rose de Oliveira, Tatiana de Marca e Virgínia Buckowski) são preenchidas de intencionalidades. Há cuidado em evitar a caricatura nas composições mais marcadas. Cais ou Da Indiferença das Embarcações valoriza o ato de contar (e escutar) uma história, um prazer antigo sintetizado ao final, quando os atores se distribuem pelo espaço para simplesmente acompanhar a fábula descortinada diante de todos.

A potência do coletivo

Nós

Julio Maciel, Teuda Bara, Paulo André, Lydia Del Picchia, Eduardo Moreira e Antonio Edson em Nós (Foto: Guto Muniz)

Num tempo como o atual, tomado por embates constantes, o Galpão ousa ao apostar na potência do coletivo. Fundado em Belo Horizonte, em 1982, o grupo continua sua trajetória, tanto perpetuando antigas parcerias quanto firmando outras. Sem a formatação tradicional que define muitas companhias (um encenador e alguns atores), o Galpão nunca contou com um diretor fixo, mas travou vínculos importantes, a exemplo dos estabelecidos com Gabriel Villela – nas montagens de Romeu e Julieta, de William Shakespeare, A Rua da Amargura – 14 Passos Lacrimosos sobre a Vida de Jesus, inspirado em O Mártir do Calvário, de Eduardo Garrido, e, mais recentemente, Os Gigantes da Montanha, de Luigi Pirandello – e Paulo José – nos espetáculos O Inspetor Geral, de Nikolai Gogol, e Um Homem é um Homem, de Bertolt Brecht.

A sobrevivência do Galpão ao longo de mais de três décadas coloca o grupo numa certa posição de resistência frente ao contexto da cena contemporânea, na medida em que as companhias de porte médio tendem a sucumbir diante dos obstáculos crescentes (fenômeno que já ocorreu com as grandes). A preparação de uma sopa simboliza o projeto conjunto, que, porém, não é executado harmoniosamente. O jogo de repetições contido na dramaturgia (a cargo do diretor Marcio Abreu e do ator Eduardo Moreira) evidencia o cansaço nas relações, fragilizadas por ânimos cada vez mais exaltados. Não por acaso, a atriz Teuda Bara diz o solilóquio do veneno de Gota D’Água, peça de Chico Buarque e Paulo Pontes, redimensionando a sopa como “uma baba, grossa e escura”.

O fato de se impor como exceção no panorama artístico não torna, portanto, o grupo menos sensível à crise. Por meio de Nós, em cartaz no Teatro Sesc Ginástico, o Galpão aborda a dificuldade de permanecer unido nos dias de hoje. Na dramaturgia, Teuda Bara é o elemento que quase todos discriminam e, ao final, em contrapartida, desejam reintegrar, mas de maneira igualmente extremista, radical. Em esfera mais ampla, a companhia externa angústia – ou, pelo menos, dúvida – acerca do presente. O grupo dá a impressão de se perguntar como seguir, tendo em vista as tragédias diárias que assolam o mundo, qual o sentido de fazer teatro quando a gravidade dos acontecimentos parece pedir ações urgentes, contundentes.

Marcio Abreu assina um espetáculo desestabilizador, que pulsa diante do público – parte dele disposto bem próximo à cena, em cima do palco (os demais espectadores são acomodados no balcão do Sesc Ginástico porque a estrutura cenográfica de Marcelo Alvarenga – Play Arquitetura – inviabiliza a visão dos lugares da plateia). Uma encenação gestada no calor da hora, sem o auxílio do distanciamento histórico. Mas para falar sobre o presente, Abreu e Moreira recorreram a referências, como Crime e Castigo, de F. Dostoievski, e a dramaturgia de Anton Tchekhov, autor que captou fase de transição, entre uma ordem de valores que começa a sinalizar desgaste e uma nova que surge no horizonte, apesar de ainda não ter se fortalecido. Mesmo afastado da linha de textos priorizada pela companhia até então, Tchekhov foi escolhido pelo Galpão nos últimos anos por meio dos espetáculos Tio Vânia (Aos que Vierem Depois de Nós) e Eclipse. A conexão com o aqui/agora, contudo, não leva o grupo a desprezar as exigências de uma construção cênica mais sólida.

O elo com o instante imediato também desponta na atuação de Teuda Bara, que reage às situações como se estivesse vivenciando-as no momento exato da cena. Os outros atores (Antonio Edson, Chico Pelúcio, Eduardo Moreira, Julio Maciel, Lydia Del Picchia e Paulo André), em plano menos realçado, demonstram plena adesão à proposta. A mencionada cenografia – que lembra, a partir de dado ponto, a concepção de Oxigênio, de Ivan Viripaev, uma das montagens de Marcio Abreu dentro da Companhia Brasileira de Teatro – e a iluminação de Nadja Naira – expressiva nas passagens mais crepusculares – são componentes determinantes desse espetáculo inquietante.