Pequenos reparos em bom entretenimento

tudoClaudio Mendes, Sérgio Menezes, Mouhamed Harfouch, André Dias e Carlos Arruza no musical Ou Tudo ou Nada (Foto: Gustavo Bakr)

A divertida história centrada no grupo de desempregados que encontra uma saída inusitada para a crise financeira – realizar um show de strip-tease firmando oposição aos corpos atleticamente padronizados que costumam despontar em apresentações dessa natureza – é conhecida do público brasileiro devido tanto ao filme de Peter Cattaneo (The Full Monty, de 1997) quanto ao musical Adoráveis Sem Vergonhas, dirigido por Guilherme Leme Garcia e adaptado para a ambientação de uma oficina mecânica. Agora, Tadeu Aguiar conduz nova montagem de Ou Tudo ou Nada, atualmente em cartaz no Teatro Net Rio.

A transposição do material original para o formato de musical foi assinada por Terrence McNally, autor do texto, e David Yazbeck, das músicas. O resultado dessa encenação brasileira é simpático, apesar de eventuais restrições, como a decisão de afastar a história de seu contexto (no filme, a cidade de Sheffield, na Inglaterra), como se a especificidade geográfica tornasse menos universal. Na verdade, a ausência de uma cor local (a ação se passa em qualquer lugar onde haja desemprego) faz com que tudo fique um pouco menos saboroso. Ou Tudo ou Nada, porém, se impõe como entretenimento satisfatório.

Ainda que se possa fazer algum reparo, as criações que integram o espetáculo se distanciam da impessoalidade. O cenário de Edward Monteiro evoca bem o ambiente da fábrica por meio de porta pesada, mas traz excesso de informação nas cortinas dispostas no fundo do palco. Os figurinos de Ney Madeira e Dani Vidal seguem os perfis de cada personagem, assumindo linha mais kitsch para as mulheres. As coreografias de Alan Rezende são adequadamente modestas, como convém a personagens inexperientes no ramo do show de strip-tease. A direção musical de Miguel Briamonte reforça a qualidade de todo trabalho e as versões das letras para o português a cargo de Artur Xexéo (que traduziu o texto) são ótimas, bastante espirituosas.

Pequenas diferenças de rendimento não ameaçam o equilíbrio perceptível nas atuações. Mouhamed Harfouch interpreta personagem de contorno mais convencional, que administra a relação com o filho e lança a ideia do strip-tease, externando, como seria de se esperar, insegurança no último instante (os momentos sentimentais geram quedas na voltagem de humor). Claudio Mendes também constrói um tipo tradicional – aquele que possui o physique du rôle contrário ao comumente exigido –, mas conquista o público com bom timing. André Dias se destaca como o homem depressivo e controlado pela mãe, revelando domínio do humor em suas cenas. Victor Maia projeta melhor a infantilidade do personagem no segundo ato. Carlos Arruza não imprime atuação particularmente marcante. Sérgio Menezes procura tirar partido da composição do idoso. Sylvia Massari aproveita, com considerável desenvoltura, a graça da personagem. Kacau Gomes, mais exagerada no início, dosa suas intervenções ao longo da apresentação. Patricia França aposta na exuberância da personagem. O menino Xande Valois tem participação empática.

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