Montagem que preenche uma lacuna

camaLucci Ferreira, Cristiano Gualda e Solange Badim em Tem um Psicanalista na Nossa Cama, em cartaz até domingo no Teatro Vannucci (Foto: Guga Melgar)

O afunilamento do teatro de mercado – voltado, em grau considerável, para o musical, gênero de destaque crescente – pode ser percebido diante da desvalorização de montagens centradas em textos, que ocupavam importantes espaços destinados a produções comerciais. A escassa quantidade de encenações recentes de peças de João Bethencourt, representativo comediógrafo brasileiro, exemplifica esse quadro (as montagens de Bonifácio Bilhões, a cargo de Ernesto Piccolo, e de O Dia em que Raptaram o Papa, de Tadeu Aguiar, são exceções). A atual montagem de Tem um Psicanalista na nossa Cama, em cartaz no Teatro Vannucci até o próximo domingo, preenche, nesse sentido, uma lacuna.

À frente do espetáculo, Gláucia Rodrigues vem, ao longo do tempo, caminhando na contracorrente das tendências da cena do Rio de Janeiro ao priorizar, por meio das montagens da Cia. Limite 151, um repertório formado por textos significativos da dramaturgia brasileira e estrangeira, transportados para o palco sem a ambição de assinaturas de direção mais marcantes. Apesar de não se tratar de um projeto da companhia, a montagem de Tem um Psicanalista na nossa Cama traz, além de Gláucia, outros integrantes do grupo, como Edmundo Lippi (diretor de produção) e Wagner Campos (música original e direção musical), valendo mencionar um ator (Lucci Ferreira) que já participou de trabalhos na Limite 151.

Gláucia Rodrigues se propõe “tão-somente” a apresentar ao espectador a peça sobre uma mulher insegura, Dolores, que, diante da suspeita de que o marido antiquado, Eduardo, mantém relações extraconjugais, procura um psicanalista. Ele, por sua vez, tenta fazer com que a cliente se torne mais consciente e emocionalmente equilibrada. João Bethencourt comprova domínio da carpintaria teatral. Mas a peça perde pontos nessa revisão. Algumas cenas, em especial a das consultas entre a paciente e o analista na primeira metade, parecem esgarçadas, destituídas de maior alcance no terreno do humor. Uma sensação que não decorre necessariamente da aceleração desenfreada que acomete muitos espectadores nos dias de hoje.

A diretora revela certa dificuldade no encontro do senso de medida nas atuações. Solange Badim, em que pese o timing azeitado, sobrecarrega a personagem com um excesso de tiques e de inflexões vocais. Lucci Ferreira exagera um pouco na composição do marido. Cristiano Gualda imprime entonação discreta para o psicanalista, figura de desenho reconhecível (a ausência de nome reforça seu caráter simbólico) que não proporciona ao ator grandes possibilidades de voo interpretativo. As demais criações contidas na montagem se aproximam do padrão funcional, salvo eventuais toques mais pessoais. O cenário de José Dias coloca o espectador diante dos dois ambientes onde a história acontece (o consultório do analista e o quarto do casal), com um biombo no meio, também transformado em armário, que, porém, não se constitui como divisória. E há um sabor de época propiciado por determinados objetos. Os figurinos de Colmar Diniz exacerbam as características dos personagens, principalmente no que se refere à condição social e ao perfil cultural. A iluminação de Rogério Wiltgen é discreta, assim como a música de Wagner Campos.

Ainda que sem atingir um resultado mais expressivo dentro do campo da comédia, a montagem de Tem um Psicanalista na nossa Cama desponta como uma iniciativa que reconcilia, mesmo isoladamente, a cena brasileira com uma vertente tradicional do teatro de mercado que vem tendo reduzida presença no panorama.

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