Terreno familiar

remorsoCena de Antologia do Remorso, em cartaz no Teatro Gonzaguinha (Foto: Rodrigo Daboit)

Flávia Prosdocimi assume inegável influência de Nelson Rodrigues nos seus contos sobre relacionamentos passionais que terminam em tragédias, provocando culpa nos envolvidos, “solucionada”, ocasionalmente, por meio do suicídio. Enfileirados ao longo de Antologia do Remorso, montagem que, depois da estreia no Sesc Tijuca, cumpre nova temporada no Teatro Gonzaguinha, os textos evocam de modo preciso o universo rodrigueno, lembrando o feito de Jô Bilac em Cachorro!, encenação da Cia. de Teatro Independente. Mesmo que as bases dos textos de Prosdocimi e Bilac sejam diferentes (basta dizer que os da autora de Antologia do Remorso têm origem literária), é como se ambos conseguissem imprimir a atmosfera de Nelson Rodrigues através de apagamento de suas próprias assinaturas – ocultação, porém, que não deve ser entendida como mera impessoalidade.

Mas se por um lado o caráter reconhecível do texto soa instigante (vale acrescentar que a decisão de manter a estrutura literária não resulta em artificialismo), por outro a concepção cênica de Antologia do Remorso parece algo repetitiva. Ainda que as opções sejam, em si, satisfatórias, uma sensação déjà vu atravessa o espetáculo de Daniel Belmonte, no que se refere ao investimento numa cena sintética, formada apenas por três cadeiras, com espaço reservado para guardar adereços (boa proposta de Julia Marina, responsável pela cenografia), à alternância entre cores neutras (preto e cinza) e vibrantes (vermelho) nos figurinos (também de Marina) e à trilha sonora (a cargo de Belmonte), de sabor nostálgico (incluindo de O Ébrio, de Vicente Celestino, a músicas entoadas por Roberto Carlos). A iluminação de Tiago e Fernanda Mantovani delimita planos distintos com habilidade.

Daniel Belmonte apresenta cena praticamente despida de elementos, concentrando, assim, a montagem nas interpretações dos atores. Elisabeth Monteiro, Gustavo Barros e Tiago D’Ávila transitam entre a narração e a vivência dos personagens, recorrendo a composições diversas que acentuam o traço de humor contido nos textos. Os atores demonstram um pouco mais de desenvoltura que a atriz, sem, contudo, que esse pequeno descompasso gere desequilíbrio no espetáculo. Assistindo a Antologia do Remorso, o espectador pode ter a impressão de percorrer terreno já palmilhado. Entretanto, a simpatia supera eventuais restrições.

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