Prêmio dedicado ao musical contempla, na mesma edição, Rio e São Paulo

Foto: Leo Aversa - Crédito obrigatório.Cena de O Grande Circo Místico, que recebeu sete indicações ao Prêmio Reverência (Foto: Leo Aversa)

Novo prêmio de teatro, idealizado por Antonia Prado, o Reverência surge repleto de especificidades. Para começar, trata-se de uma iniciativa exclusivamente dedicada ao gênero musical. Além disso, contempla produções do Rio de Janeiro e de São Paulo. Há um corpo de jurados em cada cidade. Nessa primeira edição, o júri carioca é composto pela bailarina Ana Botafogo, pelo produtor, diretor e ator Luiz Carlos Miele, pelos críticos Macksen Luiz, Rafael Teixeira e Tânia Brandão, pelo diretor Paulo Afonso de Lima, pela coreógrafa Janice Botelho e pela atriz e cantora Mirna Rubin. Já em São Paulo, o corpo de jurados é formado pela cantora Cida Moreira, pelos jornalistas Ubiratan Brasil, Sergio Martins e Miguel Arcanjo Prado, pela produtora Claudia Hamra, pelo pesquisador Claudio Erlichman, pela diretora e pesquisadora Neyde Veneziano e pela coreógrafa Kika Sampaio.

Os júris trabalham simultaneamente num sistema de votação secreto e em duas etapas: uma parte do júri escolhe os indicados e a outra, os vencedores. É diferente da estrutura de funcionamento de outros prêmios, como o da Associação dos Produtores de Teatro do Rio de Janeiro (APTR) e o Questão de Crítica, que incluem espetáculos de outros estados, mas que tenham sido apresentados no Rio; e o Shell, que realiza duas premiações independentes para a produção carioca e paulistana. A proximidade com o Cesgranrio, que possui categorias especiais para o musical, se dá pela valorização do gênero.

Nessa edição, três espetáculos lideram as indicações: O Grande Circo Místico, Os Saltimbancos Trapalhões e Samba Futebol Clube concorrem, cada um, a sete prêmios. São seguidos por Elis, a Musical, em seis categorias, e Jesus Cristo Superstar e Todos os Musicais de Chico Buarque em 90 Minutos, ambos com cinco indicações. Também foram lembrados O Homem de la Mancha, Chacrinha, o Musical, Constellation, o Musical, Vingança, o Musical, A Madrinha Embriagada, Cazuza – Pro Dia Nascer Feliz e Ópera do Malandro. A cerimônia de premiação ocorrerá no dia 24 de agosto, no Hotel Fasano, no Rio de Janeiro. A cada ano, a festa vai se dividir entre as duas cidades concorrentes.

Indicados:

ESPETÁCULO – Elis, a Musical (Aventura Entretenimento), O Grande Circo Místico (Maria Siman / Primeira Página Produções), O Homem de la Mancha (Atelier de Cultura), Os Saltimbancos Trapalhões (Möeller e Botelho), Samba Futebol Clube (Sábio Projetos)

DIREÇÃO – Dennis Carvalho (Elis, a Musical), Gustavo Gasparani (Samba Futebol Clube), João Fonseca (O Grande Circo Místico), Jorge Takla (Jesus Cristo Superstar)

ATOR PRINCIPAL – Alirio Netto (Jesus Cristo Superstar), Elenco Samba Futebol Clube, Emílio Dantas (Cazuza- Pro Dia Nascer Feliz), Leo Bahia (Chacrinha, o Musical)

ATRIZ PRINCIPAL – Adriana Garambone (Os Saltimbancos Trapalhões), Jullie (Constellation, o Musical), Laila Garin (Elis, a Musical), Soraya Ravenle (Todos os Musicais de Chico Buarque em 90 Minutos)

ATOR COADJUVANTE – Danilo Timm (Elis, a Musical), Davi Guilhermme (Todos os Musicais de Chico Buarque em 90 Minutos), Felipe Habib (O Grande Circo Místico), Wellington Nogueira (Jesus Cristo Superstar)

ATRIZ COADJUVANTE – Andrea Marquee (Vingança, o Musical), Andrea Veiga (Constellation, o Musical), Lilian Valeska (Todos os Musicais de Chico Buarque em 90 Minutos), Stella Miranda (A Madrinha Embriagada)

AUTOR – Anna Toledo (Vingança, o Musical), Chico Buarque (Ópera do Malandro), Gustavo Gasparani (Samba Futebol Clube), Newton Moreno e Alessandro Toller (O Grande Circo Místico)

CENÁRIO – Gringo Cardia (Chacrinha, o Musical), Jorge Takla e Paulo Correa (Jesus Cristo Superstar), Nello Marrese (O Grande Circo Místico), Rogerio Falcão (Os Saltimbancos Trapalhões)

FIGURINO – Claudia Kopke (Chacrinha, o Musical), Claudio Tovar (O Homem de la Mancha), Fause Haten (A Madrinha Embriagada), Luciana Buarque (Os Saltimbancos Trapalhões)

ILUMINAÇÃO – Luiz Paulo Nenen (O Grande Circo Místico), Maneco Quinderé (Elis, a Musical), Paulo Cesar Medeiros (Os Saltimbancos Trapalhões), Paulo Cesar Medeiros (Samba Futebol Clube)

COREOGRAFIA – Alonso Barros e Charles Möeller (Os Saltimbancos Trapalhões), Kátia Barros (O Homem de la Mancha), Renato Vieira (Samba Futebol Clube), Tania Nardini (O Grande Circo Místico)

SOM – Bianca Tadini e Luciano Andreys (Versão – Jesus Cristo Superstar), Branco Ferreira (Design de Som – Samba Futebol Clube), Carlos Esteves (Design de Som – Chacrinha, o Musical), Délia Fischer (Direção Musical – Elis, a Musical)

CATEGORIA ESPECIAL – Elenco de Acrobatas (Os Saltimbancos Trapalhões), Jules Vandystadt (Arranjos vocais – Todos os Musicais de Chico Buarque em 90 Minutos), Projeto Educacional Sesi-SP em Teatro Musical  (A Madrinha Embriagada / O Homem de la Mancha), Thiago Trajano (Arranjos musicais – Todos os Musicais de Chico Buarque em 90 Minutos)

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Repetição ao longo do tempo

beijame2Ângela Câmara, Julio Adrião, Claudia Mele e José Karini em Beija-me como nos Livros (Foto: Dalton Valério)

Ivan Sugahara se debruça, em Beija-me como nos Livros, sobre um período extenso – do medieval ao romantismo alemão, passando pela efervescência da dramaturgia elisabetana e pelo brilho do célebre comediógrafo do classicismo francês – a partir da escolha das obras Tristão e Isolda, Romeu e Julieta, Don Juan e Werther. Paradoxalmente, a montagem da Cia. Os Dezequilibrados, em cartaz no Teatro I do Centro Cultural Banco do Brasil, parece algo estacionada, como se o diretor colocasse o público mais diante de um quadro estático do que de um panorama em movimento.

A conexão pela temática da experiência amorosa (Sugahara traça ligação entre esse espetáculo e anteriores do grupo), realçada por meio de cenas que chamam atenção para um espelhamento entre presente e passado, não levaria necessariamente à sensação de uniformidade, de equivalência entre os momentos. Há a dificuldade imposta pelo desafio de imprimir colorido ao gromelô (tarefa concentrada, em boa parte, na variação de sotaques). Mas a articulação de um texto ininteligível não é o único – e nem o maior – elemento que contribui para certo congelamento.

A repetição decorre de uma constante reedição dos mesmos procedimentos – principalmente, a preocupação de esclarecer, de localizar o espectador, de maneira didática, em relação aos planos distintos, através de cenas que frisam que as personagens clássicas saem de dentro dos livros. Em todo caso, Sugahara embaralha, de modo oportuno, as esferas (a do presente, no qual os atores se referem uns aos outros pelos próprios nomes, e a do passado, no qual portam os de personagens).

A inversão entre as instâncias temporais também desponta na iluminação de Renato Machado, mais nostálgica para o presente e mais fria para o passado, ao contrário do esperado. A trilha sonora, a cargo de Sugahara, evoca períodos históricos diversos, assim como os figurinos de Bruno Perlatto, que sobrepõe trajes de época a uma roupa-base. O cenário de André Sanches é formado por cortinas transparentes e praticáveis compostos por livros estilizados – uma boa ideia que não resulta cenicamente. Os atores (Ângela Câmara, José Karini, Claudia Mele e Julio Adrião) correspondem às exigências do projeto, revelando fluência no gromelô e nas marcações pelo espaço (direção de movimento de Duda Maia).

Além da continuidade temática, Beija-me como nos Livros traz à tona determinadas influências da companhia, como o cinema, destacado no emprego do rewind e do fast-forward em algumas passagens. Mais provocante na proposta que na realização, a montagem, porém, concretiza suas ambições em dados instantes – em especial, na bem resolvida cena final.

Acúmulo de vozes

5D III

Maíra Dvorek, Bruno Fagundes, Antonio Fagundes e Arieta Corrêa em Tribos, que encerra temporada no próximo domingo no Sesc Ginástico (Foto: João Caldas)

A dramaturga Nina Raine coloca o público diante de uma família conflituosa, marcada por relações desgastadas ao longo do tempo, na qual ninguém verdadeiramente se escuta. O pai, Christopher, frisa seu autoritarismo, a mãe, Beth, apenas esboça reações, e dois dos três filhos, Daniel e Ruth, vivem em guerra, se sentem deslocados dentro de casa, mas não conseguem alçar voos independentes. Há um acúmulo de vozes em Tribos, tanto no que se refere aos embates ruidosos entre os personagens, frequentes no decorrer da peça, quanto aos sons internos, que se tornam cada vez mais impositivos para Daniel.

Protagonista, Billy, o outro irmão, é surdo e denuncia a falta de interesse imperante nos arruinados vínculos afetivos e, particularmente, no que diz respeito à sua realidade específica. A entrada da namorada, Sylvia, desestabiliza a estrutura rígida dos relacionamentos. O texto tem alguns problemas. As diversas discussões enfileiradas durante a peça mais reiteram do que sinalizam novas informações sobre o quadro familiar. E a autora nem sempre resolve as transições (o rompimento de Billy com a família e dele com Sylvia) de modo orgânico.

O diretor Ulysses Cruz, constante parceiro artístico de Antonio Fagundes, incorre em excessos nas marcações frontais e na utilização do telão, justificada na projeção de legendas, mas gratuita como acompanhamento em muitas cenas. O cenário de Lu Bueno traz mobiliário pouco expressivo, pertinente, porém, ao universo da família retratada. Os figurinos de Alexandre Hercovitch seguem a mesma linha, realçando diferença em relação à namorada, personagem que vem de fora e provoca instabilidade e, num certo sentido, renovação. A iluminação de Domingos Quintiliano oscila entre a luz aberta nas cenas de atrito familiar e mais fechada nas passagens em que os personagens ganham maior individualização.

As atuações são proporcionais às possibilidades oferecidas pelos personagens. Maíra Dvorek fica restrita pela limitada função de Ruth na história. Eliete Cigaarini desempenha corretamente, mas sem maiores chances interpretativas, Beth, a mãe submissa. Guilherme Magon potencializa a crescente perda de controle de Daniel. Antonio Fagundes demonstra a habitual eficiência como Christopher, figura também destituída de desenho mais complexo. Bruno Fagundes apresenta minuciosa composição vocal como Billy, personagem à beira do extravasamento. Contudo, o grande trabalho é de Arieta Corrêa, especialmente precisa no momento em que dimensiona o sofrimento da surdez após a experiência da escuta.

Tragédias dos esquecidos

2015_06_30_Aquela Cia_Caranguejo Overdrive_previa_IMG_4286Caranguejo Overdrive, encenação d’Aquela Cia. que ganhará nova temporada (Foto: Elisa Mendes)

Os espaços são definidos com precisão e, ao mesmo tempo, escapam a delimitações em Caranguejo Overdrive e Laio & Crísipo, novas montagens d’Aquela Cia. de Teatro, que comemora dez anos de atividade, apresentadas recentemente no Espaço Sesc, no Rio de Janeiro, com direção de Marco André Nunes e texto de Pedro Kosovski. Na primeira, a “ação” se passa no Rio de Janeiro, após a Guerra do Paraguai; na segunda, os personagens se encontram à beira de uma estrada, em lugar remoto.

Entretanto, Caranguejo Overdrive (que voltará à programação no dia 7 de agosto) mostra uma cidade em transformação que, porém, não altera realmente. Ao retornar da guerra, o soldado interpretado por Matheus Macena é informado de que o tempo trouxe mudanças. Mas, apesar de percebê-las numa esfera mais evidente, ele constata a continuidade de perversas estruturas de relação. Numa cena, a atriz Carolina Virgüez dá vazão a um jorro de palavras que dimensiona a perpetuação (folclórica) da corrupção na política nacional. Os acontecimentos não são os mesmos; a lógica de funcionamento, em todo caso, segue idêntica.

Em Laio & Crísipo, as vitrines de striptease localizadas numa estrada perdida podem remeter ao famoso bairro da Luz Vermelha, em Amsterdã. Há, na montagem, uma utilização consciente de clichês, a julgar pela cenografia (de Aurora dos Campos) e pelos figurinos (de Marcelo Marques), compostos por calças jeans justas e vestido vermelho com fenda. O elo com a contemporaneidade é realçado pelo tom coloquial, quase banal, do texto.

Contudo, as obras não se encerram em contextos determinados. Colocam o público diante de um concentrado de tempos. Em Caranguejo Overdrive, Marco André Nunes e Pedro Kosovski traçam instigante conexão entre o Rio de Janeiro da segunda metade do século XIX e o manguebeat. Já Laio e Crísipo contemplam, de fora, suas próprias jornadas, abarcando também o futuro ao anteciparem o que está por vir – a tragédia de Édipo, a partir do momento em que este, sem saber, matar seu pai, Laio.

2015_06_25_Aquela Cia Laio e Crisipo_Cena_IMG_3274Laio & Crísipo: apropriação da tragédia (Foto: João Júlio Melo)

Laio, Crísipo e Jocasta são abordados sem qualquer reverência. Se no passado longínquo permanecem como figuras emblemáticas, no presente surgem mergulhados no anonimato, destituídos de grandiosidade. Não há muita singularidade no triângulo amoroso que formam e o afastamento de um plano especial parece – pelo menos, em certa medida – intencional. Se existe algum problema nessa operação dramatúrgica, reside no fato de a tragédia soar aleatória, ao invés de vinculada à pesquisa do grupo, que montou anteriormente Edypop. Seja como for, ao priorizar Laio e Crísipo, Pedro Kosovski sinaliza o desejo de falar sobre a tragédia dos esquecidos, dos relegados a um destaque bem modesto. Em Caranguejo Overdrive, o protagonista, traumatizado pela guerra (um entre tantos outros), acaba engolido pelo sistema implacável. Os demais personagens despontam por meio de pinceladas, com contornos menos nítidos.

As construções dos dois espetáculos revelam percursos distintos. Em Caranguejo Overdrive, Marco André Nunes extrai de uma espacialidade básica imagens poderosas (como a do homem coberto de lama, imóvel) em cena potencializada por iluminação (de Renato Machado) algo opressiva. Em Laio & Crísipo, investe em partitura musical (direção musical de Felipe Storino, nos dois trabalhos) que contrasta com o arrebatamento, com o tom constantemente exacerbado, da montagem, que busca sintonia com o destemor da juventude, e iluminação (mais uma vez, Renato Machado) frenética, marcada por cores intensas.

Ainda que não seja um espetáculo que valorize particularmente as atuações, Caranguejo Overdrive surpreende com o naturalismo desconcertante de Carolina Virgüez (na passagem em que realiza uma explanação diante da plateia). Fica a impressão de que o sentido de improvisação faz parte da estruturação da interpretação. A construção, ocultada, não aparece para o espectador. Vale mencionar o domínio de Matheus Macena em relação à instabilidade do personagem assombrado pela guerra. Em Laio & Crísipo, Erom Cordeiro, Ravel Andrade e Carolina Ferman estabelecem provocante e catártico jogo de sedução, firmando, principalmente no que se refere ao primeiro ator, presença cuja expressividade transcende a contundência das palavras.

Crítica também publicada no site http://www.teatrojornal.com.br

Prêmio Questão de Crítica destaca encenações de companhias

Ocupação CopiRenato Carrera e Mauricio Lima em O Homossexual ou a Dificuldade de se Expressar: seis indicações (Foto: Caíque Cunha)

Encenações notadamente autorais, que resultam da continuidade de pesquisas realizadas por grupos, receberam o maior número de indicações entre os concorrentes do primeiro semestre ao Prêmio Questão de Crítica. Krum, montagem da Companhia Brasileira de Teatro, dirigida por Marcio Abreu, e O Homossexual ou a Dificuldade de se Expressar, do grupo Teatro de Extremos, conduzido por Fabiano de Freitas, concorrem em seis categorias cada. Caranguejo Overdrive, novo trabalho d’Aquela Cia., capitaneada por Marco André Nunes, ganhou cinco indicações. Além do quesito Elenco, especificidade do prêmio, nessa edição foi criada uma nova categoria: Direção de Movimento/ Preparação Corporal/ Coreografia.

Espetáculo – Caranguejo Overdrive; Krum; O Homossexual ou a Dificuldade de se Expressar

Direção – Fabiano de Freitas por O Homossexual ou a Dificuldade de se Expressar; Marcio Abreu por Krum; Marco André Nunes por Caranguejo Overdrive

Elenco – Cris Larin, Danilo Grangheia, Edson Rocha, Grace Passô, Inez Viana, Ranieri Gonzalez, Renata Sorrah, Rodrigo Bolzan, e Rodrigo Ferrarini por Krum

Ator – Guilherme Miranda por Otto Lara Resende ou Bonitinha mas Ordinária; Marcelo Olinto por Sexo Neutro; Renato Carrera por O Homossexual ou a Dificuldade de se Expressar

Atriz – Carolina Virgüez por Caranguejo Overdrive; Elisa Pinheiro por Otto Lara Resende ou Bonitinha mas Ordinária

Dramaturgia – João Cícero por Sexo Neutro; Pedro Kosovski por Caranguejo Overdrive

Cenografia – Daniela Thomas e Camila Schmidt por Hora Amarela; Mina Quental por Infância, Tiros e Plumas; Pedro Paulo de Souza por O Homossexual ou a Dificuldade de se Expressar

Figurino – Ana Teixeira e Stephane Brodt por Salina – A Última Vértebra; Antonio Guedes por O Homossexual ou a Dificuldade de se Expressar

Iluminação – Alessandro Boschini por Estamos indo Embora…; Nadja Naira por Krum; Renato Machado por O Homossexual ou a Dificuldade de se Expressar

Direção musical/Trilha sonora original – Felipe Storino pela direção musical e Mauricio Chiari pela trilha sonora original de Caranguejo Overdrive; Felipe Storino por Krum; Luís Filipe Lima pela direção musical e Nei Lopes trilha sonora original de Bilac vê Estrelas

Direção de movimento/Preparação corporal/Coreografia – Marcia Rubin por Krum; Tatiana Tibúrcio por Salina – A Última Vértebra

Especial – Bia Radunsky pela curadoria de teatro e dança do Espaço Sesc de 2002 a 2015; Centro Cultural Banco do Brasil pela realização, Hélio Eichbauer pela curadoria da exposição e Sérgio de Carvalho pela curadoria da Mostra Paralela da mostra multimídia Augusto Boal; Christiane Jatahy pela direção da ópera Fidelio

Salina lidera indicações ao Prêmio Shell

salinaGraciana Valladares em Salina – A Última Vértebra, encenação da Amok (Foto: Divulgação)

Salina- A Última Vértebra, espetáculo da companhia Amok Teatro para o texto de Laurent Gaudé, recebeu o maior número de indicações ao Prêmio Shell entre as encenações apresentadas no primeiro semestre de 2015. Krum, montagem de Marcio Abreu para o texto de Hanoch Levin, e Madame Bovary, adaptação de Bruno Lara Resende para o romance de Gustave Flaubert, ganharam, cada uma, indicações em duas categorias. Em um quesito aparecem Autobiografia Autorizada, Família Lyons, Hora Amarela, Eugênia, Meu Saba, Bilac vê Estrelas, Contra o Vento – Um Musicaos e O Processo. O Prêmio Shell – cujo júri atual é formado por Ana Achcar, Bia Junqueira, João Madeira, Macksen Luiz e Moacir Chaves – possui particularidades: não há o quesito melhor espetáculo; e a categoria especial foi substituída por Inovação.

 Indicados:

 AUTOR – Paulo Betti (Autobiografia Autorizada)

 DIREÇÃO – Márcio Abreu (Krum); Ana Teixeira e Stephane Brodt (Salina – A Última Vértebra)

 ATOR – Danilo Grangheira (Krum); Joelson Medeiros (Madame Bovary)

 ATRIZ – Tatiana Tibúrcio (Salina – A Última Vértebra); Suzana Faini (Família Lyons)

 CENOGRAFIA – Fernando Marés (Krum); Daniela Thomas e Camila Schmidt (Hora Amarela)

 FIGURINO – Ana Teixeira e Stéphane Brodt (Salina – A Última Vértebra); Samuel Abrantes (Eugênia)

 ILUMINAÇÃO – Aurélio de Simoni (Meu Saba); Renato Machado (Madame Bovary)

 MÚSICA – Ney Lopes (pela trilha sonora de Bilac vê Estrelas); Felipe Vidal e Luciano Moreira (Contra o Vento – Um Musicaos)

 INOVAÇÃO – Teatro Voador Não Identificado (pela proposição de dispositivo cênico na montagem de O Processo, que revela o exercício dos atores em criação, além de atualizar a história de Kafka); Companhia Amok Teatro (pelo processo de seleção e treinamento do elenco para o espetáculo Salina – A Última Vértebra).

O império do corpo

Ocupação CopiRenato Carrera e Leonardo Corajo em O Homossexual ou a Dificuldade de se Expressar (Foto: Caíque Cunha)

Copi – pseudônimo do dramaturgo, performer e desenhista argentino Raul Botana – está sendo evocado por meio de duas montagens, O Homossexual ou a Dificuldade de se Expressar e A Geladeira, que encerram temporada no próximo domingo, no Espaço Sesc. Apesar de escritos em décadas passadas (o primeiro, em 1971, o segundo, em 1983), os textos parecem atuais numa época em que os padrões sexuais pré-estabelecidos são cada vez mais questionados.

Em O Homossexual ou a Dificuldade de se Expressar, Copi reúne personagens que mudaram de sexo e vivem isoladas na Sibéria, cercadas por natureza inóspita. Mais do que abordar sexualidades que escapam a categorizações limitadoras, Copi potencializa o corpo. Traz à tona a autonomia do indivíduo em relação ao próprio corpo – no que se refere à nova constituição física com a troca de sexo –, o intenso exercício da sexualidade – através da prática de Irina, a personagem da filha, revelada logo no início – e, principalmente, o corpo reduzido às suas funções básicas e depois ferido, degradado, mutilado a partir de furiosa determinação – também por meio de Irina.

A encenação de Fabiano de Freitas, à frente do grupo Teatro de Extremos, valoriza as qualidades da dramaturgia de Copi (traduzida por Giovana Soar), sem, porém, enveredar pelo caminho tradicional da subserviência à obra original, conforme se pode constatar através dos elementos que integram o espetáculo. O cenário de Pedro Paulo de Souza é composto por tubos suspensos que separam o espaço de dentro da casa, onde se encontram as personagens, e o de fora, ameaçador. Os tubos se impõem como interferências, mas não exatamente como barreiras, ao olhar. Há conexão entre a cenografia e a iluminação de Renato Machado. Os figurinos de Antônio Guedes priorizam cores escuras, fechadas (contrastadas pelo vermelho) e são propositadamente pesados, ainda que haja certa quebra de austeridade, em sintonia com os perfis transgressores das personagens.

Fabiano de Freitas extrai notável rendimento dos atores centrais, Renato Carrera (a mãe), Maurício Lima (Irina) e Leonardo Corajo (a professora de piano, apaixonada por Irina). Cabe fazer menção especial ao trabalho de Carrera, bastante preciso no timing, na propriedade com que diz o texto (em particular, no tom de humor que imprime). Em papéis menores, Higor Campagnaro e Fabiano de Freitas têm atuações mais modestas. O Homossexual ou a Dificuldade de se Expressar desponta como destaque do panorama teatral.

Ocupação CopiMarcio Vito em A Geladeira (Foto: Caíque Cunha)

Em A Geladeira, o diretor Thomas Quillardet realça a sexualidade híbrida do personagem, a julgar pelo ator Marcio Vito, que, maquiado, não oculta a imagem masculina por meio de uma aparência feminina, mas acumula ambas. A incômoda presença de uma geladeira, dada pela mãe, é o ponto de partida para a desvairada jornada do personagem, que vive com a governanta/carcereira, num espaço familiar (dotado de utensílios domésticos que remetem ao passado) e desconcertante (devido à inclusão de animais empalhados). O espectador tende a se perder em meio à sucessão de acontecimentos, decorrência da dramaturgia (traduzida por Maria-Clara Ferrer), uma vez que Copi não procura fornecer a segurança de uma estrutura linear de história. Contudo, a encenação, por causa do texto, acaba restrita ao plano de um registro virtuosístico, centrado na habilidade do ator para se desdobrar em diferentes personagens. Sozinho no palco, Marcio Vito transita entre os diversos tipos, demonstrando apreciável dosagem dos tempos de interação entre cada um e domínio de composição. Mas a sensação que fica é de esterilidade. Seja como for, a importância do projeto supera a irregularidade entre as montagens.