Permanente estado febril

camilleLeopoldo Pacheco e Melissa Vettore em Camille e Rodin, em cartaz no Teatro Maison de France (Foto: Ale Catan)

Discípula e amante de Auguste Rodin, Camille Claudel reivindica autonomia artística diante do mestre. Sua postura se torna contundente à medida que o relacionamento com Rodin ganha tintas cada vez mais carregadas. O texto de Franz Keppler repousa sobre terreno conhecido – o vínculo passional entre artistas renomados (ambos escultores, no caso), a sensação de inferioridade de um frente ao outro, o preconceito enfrentado pela mulher para se projetar em âmbito artístico e a quebra da barreira da sanidade –, mas o autor parece ter ambicionado voar um pouco além da transcrição dos fatos, de modo a captar os estados febris de Rodin e, em especial, Claudel.

Diretor de Camille e Rodin, montagem atualmente em cartaz no Teatro Maison de France, Elias Andreato procura se distanciar da previsibilidade, a julgar por determinadas marcações dos atores e pela concepção do espaço. A cenografia de Marco Lima – que reconstitui a ambientação de um extenso ateliê, destacando as marcas de presença decorrentes da criação (o barro impregnado nos elementos e nos móveis), e um recorte de sanatório – sugere campos privados dos personagens mesmo dentro do espaço compartilhado.

A iluminação de Wagner Freire também oscila entre o concreto – a demarcação da passagem de tempo do lado de fora do ateliê, que, contudo, adquire alcance poético através das gradações de azul e rosa – e a suspensão desse registro – a delimitação de áreas intimistas dentro do ateliê, assinalando estágios do elo entre Camille e Rodin. Os figurinos de Marichilene Artisevskis são adequadamente gastos, próprios para artistas mergulhados no processo de criação. A trilha sonora de Jonatan Harold pontua a cena com beleza, mas é empregada com excesso.

Elias Andreato não se contenta com as restrições do literal. Algumas marcações, principalmente as destinadas à Claudel, se afastam do gestual cotidiano. É como se a fisicalidade evidenciasse o turbulento mundo interior da personagem. E os momentos em que os atores se posicionam na frente do palco não visam a uma tradicional quebra da quarta parede.

Leopoldo Pacheco e Melissa Vettore são conduzidos rumo a um jogo de contrastes, entre o racional (ainda que não destituído de reações impulsivas) de Rodin e a emoção rasgada de Claudel. No trabalho de Pacheco sobressai a palavra dita com clareza, frisada, domínio apreciável que, porém, não impede que sua interpretação soe linear. Já Vettore incorre em exagero em atuação norteada por intensidade (estampada no corpo e na voz).

Camille e Rodin não rompe com uma perspectiva convencional, no que se refere ao enfoque dado aos personagens, mas apresenta propostas cênicas, até certo ponto, instigantes.

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