Prêmio APTR: montagem de Incêndios lidera indicações

Foto: Leo Aversa - Crédito obrigatório.A encenação de Incêndios recebeu dez indicações  (Foto: Leo Aversa)

A Associação dos Produtores de Teatro do Rio de Janeiro divulgou os indicados à oitava edição do prêmio, agendada para 8 de abril no Imperator. Incêndios, tragédia contemporânea do dramaturgo libanês Wadji Mouawad, encenada por Aderbal Freire-Filho e protagonizada por Marieta Severo, recebeu o maior número de indicações (dez), seguida por Conselho de Classe (cinco), uma das montagens concebidas para a comemoração dos 25 anos da Cia. dos Atores, que saiu vitoriosa da primeira edição do Prêmio Cesgranrio. Os musicais também foram lembrados – Como vencer na Vida sem fazer Força (três), Elis (duas), Jim (duas), As Mulheres de Grey Gardens (duas) e Cazuza – Pro Dia nascer Feliz (uma). O Prêmio APTR conta com determinadas especificidades em relação aos demais. Organizado por uma associação de produtores, traz uma categoria (Produção) decidida pelos integrantes da APTR e não pelo júri oficial. E desmembra a categoria de ator e atriz, abraçando também as atuações de coadjuvantes.

Indicados:

Espetáculo – Cine_Monstro, Conselho de Classe, Incêndios, Quem tem Medo de Virginia Woolf?

Direção – Aderbal Freire-Filho (Incêndios), Bel Garcia e Susana Ribeiro (Conselho de Classe), Daniel Herz (A Importância de ser Perfeito), Enrique Diaz (Cine_Monstro)

Autor – Diogo Liberano (Maravilhoso), Jô Bilac (Conselho de Classe), Jô Bilac (Fluxorama), Júlia Spadaccini (Um Dia Qualquer)

Ator Protagonista – Antonio Fagundes (Vermelho), Cesar Augusto (Conselho de Classe), Emílio Dantas (Cazuza – Pro Dia Nascer Feliz – O Musical), Marcelo Olinto (Conselho de Classe), Marcelo Serrado (Rain Man)

Atriz Protagonista – Barbara Paz (Vênus em Visom), Camilla Amado (O Lugar Escuro), Laila Garin (Elis – A Musical), Marieta Severo (Incêndios)

Ator Coadjuvante – André Loddi (Como Vencer na Vida sem fazer Força), George Sauma (A Importância de ser Perfeito), Isaac Bernat (Incêndios), Marcio Vito (Incêndios)

Atriz Coadjuvante – Adriana Garambone (Como Vencer na Vida sem fazer Força), Clarisse Derzié Luz (À Beira do Abismo me cresceram Asas), Kelzy Ecard (Incêndios), Suely Franco (As Mulheres de Grey Gardens – O Musical)

Cenografia – Analu Prestes (Emily), Aurora dos Campos (Conselho de Classe), Bia Junqueira (As Mulheres de Grey Gardens – O Musical), Fernando Mello da Costa (Incêndios)

Figurino – Antonio Guedes (O Médico e o Monstro), Beth Filipecki (À Beira do Abismo me cresceram Asas), Rita Murtinho (Emily), Thanara Schönardie (A Importância de ser Perfeito)

Iluminação – Luiz Paulo Nenén (Incêndios), Maneco Quinderé (Elis – A Musical), Maneco Quinderé (Jim), Tomás Ribas (Moi Lui)

Música – Edu Lobo (Deixa que Eu te Ame), Paulo Nogueira (Como Vencer na Vida sem fazer Força), Ricco Vianna (Jim), Tato Taborda (Incêndios)

Categoria Especial – Camilla Amado (Pelos 50 anos de carreira dedicados ao teatro), Casa da Gávea (Pelos 20 anos do Ciclo de Leituras Dramatizadas), José Dias (Pela publicação do livro sobre os teatros do Rio, Editora Funarte), Leandro Soares (Pela tradução e adaptação do texto A Importância de ser Perfeito, de Oscar Wilde).

Produção – Conselho de Classe, Elis – A Musical, Incêndios, Nem mesmo todo Oceano

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Obra ganha corpo no palco

Foto: Leo Aversa - Crédito obrigatório.Felipe Lima e Pablo Sanábio em Fonchito e a Lua, em cartaz no CCBB (Foto: Leo Aversa)

A adaptação de Fonchito e a Lua para teatro representou um desafio. Como a obra original de Mario Vargas Llosa é muito sintética, Pedro Brício, responsável pela dramaturgia, decidiu expandi-la por meio de novos personagens e situações. Enquanto o livro conta com apenas dois – Fonchito e Nereida –, além de poucos mencionados – como a mãe de Nereida –, o texto teatral apresenta vários outros – os amigos de Fonchito, a mãe dele e figuras mais periféricas, como a professora e o motorista.

Pedro Brício avoluma a história sem perder de vista o foco: a paixão do menino Fonchito por Nereida, sua amiga, que pede para ele trazer a lua como prova de seu amor. Brício esgarça algumas circunstâncias – como a de Fonchito e Nereida tentando encontrar dia e horário em comum para verem a lua “capturada” – e concebe outras, valorizando determinadas questões – como o fato de que as relações sobrevivem mesmo na distância, percepção evidenciada a partir do anúncio da mudança de Leon, um dos amigos de Fonchito, do Peru, onde a história se passa, para o Brasil. Brício faz bem em não alterar o contexto, mantendo referências importantes, como ao céu nublado de Lima. Em comparação com o livro, o texto da peça é menos intimista, mais feérico. As criações dos personagens dos amigos de Fonchito são ótimas. Mas talvez caiba problematizar a necessidade da existência dos adultos, considerando que tudo o que acontece em cena diz respeito às descobertas do mundo pelas crianças. E as eventuais balizas impostas pelos mais velhos poderiam ser resolvidas através de narração.

A encenação assinada por Daniel Herz realça o artesanal, característica especialmente sublinhada na cenografia (de Clarissa Neves e Paulo Waisberg), composta por estandartes pendurados, montes de caixas, palha revestindo chão e parede e destaque para o vermelho que contrasta com as listras e estampas em preto e branco dos figurinos (de Ronaldo Fraga). O diretor busca o poético, a exemplo do instante em que as lágrimas de Fonchito caídas sobre uma bacia espelham a lua, “materializada” por meio da iluminação de Aurélio de Simoni. A trilha sonora (de Paulo Santos) tem a marca do grupo Uakti. Os atores ajudam a instalar a atmosfera lúdica que atravessa o espetáculo e dão vazão à energia endiabrada própria das crianças. São os casos de Pablo Sanábio, Felipe Lima e Marino Rocha, com Thais Belchior sintonizada com uma personagem com menos adrenalina e Raquel Rocha se desdobrando nas composições dos tipos adultos.

Fonchito e a Lua resulta da dedicação continuada de profissionais (Herz, Brício, Sanábio), normalmente ligados ao “teatro adulto”, à produção infanto-juvenil. Esse trabalho inaugura ainda um novo espaço do Centro Cultural Banco do Brasil, até então não utilizado para teatro, aqui bem aproveitado em suas possibilidades.

Convencionalmente correto

ritaMariana Mac Niven e Claudio Mendes em Educando Rita (Foto: Otavio Mac Niven)

Educando Rita reúne questões próprias da dramaturgia de Willy Russel (autor também lembrado por Shirley Valentine, outro de seus textos montados no Brasil) – em especial, a conquista do livre-arbítrio por uma mulher que alarga seus horizontes ao romper, aos poucos, com uma vida conjugal um tanto estagnada. O desejo de Rita, como a personagem se denomina no início, de se aprimorar nos estudos a leva em direção ao crescente conhecimento de si mesma.

Inspirada em Pigmaleão, de George Bernard Shaw, a peça tem estrutura formada pela sequência de encontros semanais travados entre professor, Frank, e aluna, a já mencionada Rita. Primeiro cabe a Rita vencer a resistência de Frank, motivado apenas pelo álcool; a tenacidade da aluna, contudo, contamina o professor, que hesita, porém, em acabar reprimindo a espontaneidade dela por meio das leis acadêmicas. Russel traça caloroso painel humano, mas seu texto (adaptado para o cinema por Lewis Gilbert) resulta algo repetitivo e previsível. É possível antecipar o desdobramento da relação entre Frank e Rita e, particularmente, determinadas situações, como a da reação do professor ao ter um texto seu avaliado pela aluna e a cena final. Os problemas dramatúrgicos são agravados pela desnecessária transposição da ação para o Rio de Janeiro, realizada provavelmente a partir do injustificado temor de que, se mantida em seu lugar de origem, a história poderia ficar distante do espectador brasileiro. Em contrapartida, há referências – como a A Gaivota, peça de Anton Tchekhov, e Howards End, romance de E.M. Forster – que soam saborosas.

Claudio Mendes dirige o espetáculo, que encerra temporada no Teatro Café Pequeno no próximo domingo, com correção convencional. Valoriza o texto – evidenciando suas limitações – e o trabalho dos atores. Os personagens são interpretados por Claudio e por Mariana Mac Niven. A atriz carrega no desenho popular de Rita, mas dosa a composição ao longo da apresentação, enquanto o ator transita com mais organicidade pelos estados do professor, cada vez mais receoso diante da perspectiva da partida da aluna. O cenário de Arlete Rua, Carlos Alberto Nunes e Paula Cruz reconstitui com certo detalhamento o escritório caótico de Frank. O trio assina ainda os figurinos, que “definem” os personagens de acordo com suas personalidades e condições sociais diversas, assinalando a mudança de perfil de Rita no decorrer do tempo. A iluminação de Paulo César Medeiros complementa de modo preciso a ambientação. E a trilha sonora de Alessandro Perssan imprime um toque de humor.

Investimento em rumos opostos

romeuAntonio Rabello, Adriano Garib e Marina Provenzzano em Eu, o Romeu e a Julieta (Foto: Felipe Lima)

Com Eu, o Romeu e a Julieta, espetáculo em rápida temporada no Mezanino do Espaço Sesc, em Copacabana, a Cia. das Inutilezas parece buscar diálogo com uma faixa mais abrangente de espectadores do que as montagens anteriores do grupo. Esta observação não deve ser interpretada como elogio ou demérito. Trata-se apenas de uma constatação independente de juízo de valor relacionada a um aparente desejo do diretor Emanuel Aragão de se aproximar do público (sobretudo) pela via emocional.

Não por acaso, o trabalho é “definido”, logo antes do começo da sessão, por Liliane Rovaris, assistente de direção com discreta participação em cena, como uma comédia romântica. O diretor questiona convenções dessa combinação de gêneros, o que evidencia certa ambição crítica, ao mesmo tempo em que procura inscrever Eu, o Romeu e a Julieta nessa corrente. Nesse sentido, a montagem segue rumos opostos sinalizando tensões. Se por um lado Emanuel Aragão se esforça para reverberar na plateia ecos do vínculo passional entre personagens da atualidade – um diretor/ator, Pedro, e uma atriz, Ana, imersos em turbulento processo de encenação de Romeu e Julieta, tragédia de William Shakespeare –, por outro se vale de recursos de distanciamento, concentrados em Antonio, um menino que narra e conduz as jornadas acidentadas dos dois, assumindo, dessa forma, a posição de diretor da cena.

Antonio fica encarregado de introduzir e manipular todos os elementos (quadros com explicações sobre a peça, mesa, cadeiras, televisão), preenchendo o palco inicialmente vazio (cenografia de Antonio Pedro Coutinho). A inserção desses elementos pode dar a sensação de que Emanuel Aragão quer abordar o processo criativo, eleger como tema a construção da cena. O diretor, porém, investe mais na associação entre a trágica história de amor entre Romeu e Julieta e a intensidade do elo entre Pedro e Ana, talvez a partir de uma “contaminação” do segundo casal pela energia do primeiro.

Entretanto, a articulação do casal de Shakespeare com uma circunstância contemporânea resulta em tímida presentificação de Romeu e Julieta. A operação pouco verticalizada sobre a peça do dramaturgo inglês (alguns procedimentos, como os vídeos com os atores transitando desnorteados pelo espaço do Sesc e pelas ruas de Copacabana não chegam a ganhar corpo) e os problemas dramatúrgicos (o diretor assina o texto) tornam menos refinada a conexão entre o célebre e o novo casal.

Determinados dados soam nebulosos, como as razões que justificam o estado de Pedro, praticamente sem variações, e a paixão que Ana passa a sentir por ele. Se Pedro é linear em seu constante fluxo interrompido, sintoma de excesso de timidez na esfera amorosa e/ou de adesão à obra que anseia encenar, Ana desponta como uma atriz bastante limitada para convencer Pedro de que possui plenas condições para ser a Julieta perfeita, a julgar por suas tolas menções à versão cinematográfica de Baz Luhrmann para a peça de Shakespeare (Romeu + Julieta). A perspectiva de Antonio, impactado pela separação dos pais, é anunciada no início, mas se dissolve ao longo da apresentação. É como se as informações esfumaçassem em cena.

A ausência de colorido na concepção dos personagens influencia nas atuações, ainda que Antonio Rabello cumpra com disciplina suas atribuições e Adriano Garib e Marina Provenzzano executem com competência o contraste proposto – o constrangimento de Pedro, a naturalidade de Ana –, devidamente realçado nos figurinos (de Liliane Rovaris). A iluminação de Isadora Petrauskas sugere atmosfera intimista e a trilha sonora, de Alex Tolkmit, é suave, qualidades ideais para essa montagem que desembarca em cena em apreciável tom menor.

Apesar de prejudicado principalmente pela fragilidade do texto, Eu, o Romeu e a Julieta integra o percurso de uma companhia interessante e inquieta, que já mostrou ótimos trabalhos, a exemplo de Meu avesso é mais visível que um poste.

Crítica postada no site http://www.teatrojornal.com.br

Um prêmio com características peculiares

Vestido de NoivaVestido de Noiva: a montagem de Renato Carrera ganhou o Prêmio Questão de Crítica na categoria Espetáculo (Foto: Dalton Valério)

Em sua terceira edição, o Prêmio Questão de Crítica – que tomou conta do Espaço Sesc, em Copacabana, na noite da última terça-feira – contemplou a montagem de Renato Carrera para Vestido de Noiva, de Nelson Rodrigues, como a mais destacada de 2013, e O Patrão Cordial, da Cia. do Latão, em duas categorias – elenco e dramaturgia. Ainda assim, a distribuição não apontou para a soberania de uma encenação. Com exceção da apropriação do Latão para O Senhor Puntila e seu Criado Matti, de Bertolt Brecht, as demais montagens – Dias felizes: Suíte em 9 Movimentos, As Horas entre Nós, Incêndios, Conselho de Classe, Moi Lui, Peep Classic Ésquilo, Os Gigantes da Montanha e a já citada Vestido de Noiva – ganharam um prêmio cada.

Mais importante do que realçar favoritos no resultado, porém, é atentar para o perfil do Prêmio Questão de Crítica, diretamente atrelado à revista eletrônica homônima que, criada por Daniele Avila Small e Dinah Cesare dentro do ambiente universitário (UniRio), visa a uma abordagem da cena brasileira mais norteada por proposta crítica e reflexiva do que por juízos de valor. Esta iniciativa foi desdobrada, esse ano, com o surgimento do Prêmio Yan Michalski, destinado à produção das universidades de teatro. O prêmio, que faz referência a Michalski (1932-1990), evoca a trajetória desse renomado crítico de teatro do Jornal do Brasil que também se engajou no processo de formação de atores, a julgar por sua relevância na fundação da Casa das Artes de Laranjeiras (CAL), em 1982. A preocupação do júri do Questão de Crítica com a difusão do conhecimento refletiu no prêmio da Categoria Especial para a diretora Celina Sodré, que há anos vem conduzindo encontros semanais no Instituto do Ator, na Lapa, voltados para o aprofundamento do estudo das contribuições de Jerzy Grotowski (1933-1999).

3º PRÊMIO QUESTÃO DE CRÍTICA

Espetáculo – Vestido de Noiva

Elenco – O Patrão Cordial: Adriana Mendonça, Carlos Escher, Helena Albergaria, Ney Piacentini, Renan Rovida, Ricardo Monastero, Rogério Bandeira e Rony Koren

Direção – Rita Clemente (Dias Felizes: Suíte em 9 Movimentos)

Atriz – Cristina Flores (As Horas entre Nós)

Ator – Márcio Vito (Incêndios)

Dramaturgia – Sérgio de Carvalho (O Patrão Cordial)

Cenografia – Aurora dos Campos (Conselho de Classe)

Iluminação – Tomás Ribas (Moi Lui)

Figurino – Juliana Galdino (Peep Classic Ésquilo)

Direção Musical – Ernani Maletta (Os Gigantes da Montanha)

Categoria Especial – Celina Sodré (pela realização do Grupão Grotowski)

1º PRÊMIO YAN MICHALSKI

 Espetáculo – Os Miseráveis (UFRJ)

Direção – Victor Brennad (As Criadas, montagem da UniRio)

Atriz – Luíza Maldonado (Senhora dos Afogados – aluna do Centro Universitário da Cidade, montagem da UFRJ)

Ator – Phellipe Azevedo (O Último Godot – aluno da UniRio, montagem da UniRio)

Especial – Elsa Romero e Isadora Petrauskas (pela cenografia do espetáculo Dentro da própria Casa, montagem da UniRio)

Propostas nem sempre desenvolvidas

claraA atriz Clara Santhana, cercada pelos músicos, em Deixa Clarear (Foto: Claudia Ribeiro)

Concebido como homenagem aos 30 anos de morte da cantora Clara Nunes, o musical Deixa Clarear afirma determinadas especificidades em relação ao formato biográfico, concentradas, em boa parte, na estrutura do texto de Márcia Zanelatto, que busca o registro poético.

A montagem assinada por Isaac Bernat lança algumas proposições nem sempre encorpadas ao longo da apresentação. A principal é a conexão entre a atriz Clara Santhana, idealizadora do projeto, e Clara Nunes. A fala em primeira pessoa poderia ter sido inserida de modo mais marcante na malha dramatúrgica do espetáculo.

O aproveitamento dos músicos –Michel Nascimento, Bidu Campeche (percussão), Felipe Rodrigues (violão/cavaquinho) e Lauro Lira (flauta/violoncelo) – como atores é um recurso interessante, mas, em Deixa Clarear, fica reduzido a rápidas contracenas e a uma sequência ambientada no Programa do Chacrinha que justamente quebra com o andamento do texto e da montagem.

Clara Santhana demonstra empenho e dedicação. Entretanto, não chega a firmar personalidade interpretativa mais destacada e recorre a dispensáveis composições na evocação de personagens que passaram pela vida de Clara Nunes, opção empregada especialmente no início do espetáculo. A atriz também não imprime colorido suficiente ao texto e é prejudicada, nos minutos iniciais, pela artificialidade da voz amplificada através do microfone.

As restrições, porém, não anulam o visível cuidado do trabalho que, após temporada no Teatro Café Pequeno, ressurge no Teatro das Artes em configuração cênica um pouco expandida, levando-se em conta o perfil intimista de Deixa Clarear. O cenário de Doris Rollemberg dá a sensação de leveza decorrente dos bancos em madeira clara e da cortina de fundo em tom prateado, além de outros elementos utilizados em breves instantes. Na iluminação de Aurélio de Simoni predomina o amarelo, em variações que esquentam a cena. O figurino de Desirée Bastos evidencia total sintonia com a suavidade que impera na montagem. Cabe elogiar ainda a direção de movimento de Marcelle Sampaio.

O habitual rigor da Dos à Deux

sangueCena de Irmãos de Sangue, espetáculo em cartaz no Teatro I do CCBB (Foto: Xavier Cantat)

No panorama teatral do Rio de Janeiro, a Cia. Dos à Deux, conduzida por André Curti e Artur Ribeiro, se impôs graças à especificidade do trabalho – a realização de espetáculos destituídos de texto verbal – e à competência na execução dessa proposta – evidenciada por meio da criação de imagens cênicas atraentes. O objetivo de Curti e Ribeiro não é anular a dramaturgia, e sim ampliá-la através da valorização do texto não-dito. Irmãos de Sangue, nova encenação atualmente em cartaz no Teatro I do Centro Cultural Banco do Brasil (CCBB), confirma as principais características do grupo, o que não significa que não seja possível perceber determinadas nuances nessa montagem em relação às anteriores.

Nesse espetáculo, por exemplo, não existe propriamente uma preocupação com a evolução de um enredo. André Curti e Artur Ribeiro (que acumulam as funções de direção, dramaturgia, cenário e coreografia, além de estarem presentes como atores) concentram o foco na infância, evocada por irmãos a partir da morte do pai. Este ponto inicial dimensiona a memória como construção – diretamente influenciada pelo modo peculiar como aquele que lembra vivenciou os fatos – e não como reconstituição de acontecimentos tais como se deram. Curti e Ribeiro se mostram menos voltados para a tarefa de contar uma história do que em descortinar diante do público um painel doce-amargo de uma fase intensa.

A ausência de texto verbal encaminha os criadores rumo a uma ânsia por preenchimento da cena – através da ação e da música. Como outras montagens da Cia. Dos à Deux, Irmãos de Sangue deixa certa sensação de excesso, mais marcante, porém, na primeira metade. Em dado instante, os diretores interrompem o uso até então ininterrupto da trilha sonora (a cargo de Fernando Mota), uma bem-vinda decisão. Os elementos que compõem a encenação são utilizados de forma surpreendente. Cabe destacar a mesa giratória e o balanço na cenografia; o contraste entre trajes de base masculinos (camiseta e calça com suspensórios) e vibrantes vestidos femininos nos figurinos (de Natacha Belova), assim como o casaco de onde saem fios; a iluminação (de Bertrand Perez e Artur Ribeiro) que preserva a sutileza ao manter muitas cenas na penumbra; e o domínio no manejo de técnicas – em especial, a manipulação de bonecos (as marionetes também são de Belova).

Os atores (Curti e Ribeiro, Cécile Givernet e Matias Chebel) tendem a comover o espectador pela expressividade da cena e pela habilidade em projetar os sentimentos que movem os personagens, mas talvez o teatro gestual desenvolvido pela companhia ainda pudesse se afastar mais de uma instância coreográfica. Em todo caso, Irmãos de Sangue é mais uma prova do rigor da Cia. Dos à Deux.