Pesquisa materializada em cena

recusaAntonio Salvador e Eduardo Okamoto em Recusa: comprometimento em cena (Foto: Ernesto Vasconcelos)

FESTIVAL DE CURITIBA / SÃO PAULO – O projeto de Recusa, da Cia. Teatro Balagan, surgiu de uma notícia de jornal, destacada ao final do espetáculo, referente a índios que foram localizados, medicados, mas recusaram contato com os brancos e voltaram para a mata. O encontro com a diferença, a contaminação por uma cultura diversa, é visto aqui mais como ameaça do que como fonte de enriquecimento – o que soa natural, em se tratando da história indígena. A preocupação está com a preservação de uma determinada pureza, de uma essencialidade, de algo que não deve ser maculado.

A partir de um fato real, Luís Alberto de Abreu investiu numa dramaturgia que evoca a formação da identidade brasileira e atravessa o tempo. Realça a submissão dos índios ao processo civilizatório. A sutileza do texto só é ferida no momento em que o autor assume uma abordagem mais frontalmente política. À frente da encenação, Maria Thais revela apurado trabalho de pesquisa refletido nas interpretações refinadas de Antonio Salvador e Eduardo Okamoto, que transitam entre a encarnação dos personagens e uma narração comprometida, sem a distância com que esse recurso é normalmente empregado. Os atores comprovam domínio vocal, tanto no canto delicado quanto na firmeza da narração, valorizam a musicalidade do texto, cortam as falas de maneira surpreendente.

A cenografia de Márcio Medina tem como principais elementos pequenos arranjos compostos por filetes de bambus, que constituem travessias no modo habilidoso com que são manipulados pelos atores no decorrer da apresentação. O figurino, também de Márcio Medina, se resume praticamente a adequados e encardidos shorts vermelhos. A iluminação crepuscular de Davi de Brito oscila entre a calorosa laranja (mas sem enveredar por uma padronizada luz solar) e a frieza do azul. A expressiva música (a cargo de Marlui Mirada) é produzida em cena por meio do canto e pelo uso de instrumento.

Na recém-encerrada edição do Festival de Curitiba, Recusa foi visto no Centro de Eventos Sistema FIEP. A amplidão do espaço prejudicou o espetáculo, apesar das belas soluções – particularmente, o aproveitamento da cidade, cujo movimento era acompanhado através de uma parede espelhada, e a iluminação de uma grande árvore do lado de fora da sala. No Centro Internacional de Teatro Ecum, em São Paulo, a encenação resulta mais concentrada diante do público.

O crítico viajou a convite da organização do festival.

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