Destaques de um ano difícil

Yara de Novaes e Jorge Emil em Uma Espécie de Alasca (Foto: Leekyung Kim)

Num ano especialmente conturbado para o teatro no Rio de Janeiro – marcado pela falta de apoio, pela perda definitiva ou temporária de espaços e por temporadas cada vez mais curtas –, encenações diversificadas e de qualidade sustentaram a temporada.

Além dos espetáculos destacados, muitos outros trabalhos merecem menção: as atuações de Gabriela Rosas em Perdoa-me por me Traíres, Blackyva em Balé Ralé, Carol Fazu em Janis, Claudio Gabriel em Hollywood, Alexandre Varella em Tubarões, Mario Borges em Doce Pássaro da Juventude, Karen Coelho em Os Sete Gatinhos, Savio Moll em Círculo da Transformação em Espelho e Heloisa Jorge em O Jornal; as direções de Inez Viana em Mata teu Pai e Pedro Kosovski em Tripas; as cenografias de Mina Quental em Mata teu Pai, Carla Berri e Paulo de Moraes em Hamlet, Marco André Nunes e Marcelo Marques em Guanabara Canibal, Fernando Mello da Costa em Os Sete Gatinhos e Lidia Kosovski em Tripas; as iluminações de Maneco Quinderé em Hamlet, Tomás Ribas em Estes Fantasmas, Bernardo Lorga em Festa de Aniversário, Wagner Freire em Pagliacci e Paulo César Medeiros em O Jornal; os trabalhos de música de Marcelo Alonso Neves em Estes Fantasmas e Dançando no Escuro, Ricco Viana em Hamlet, Felipe Storino em Guanabara Canibal, André Poyart em Festa de Aniversário e Dr. Morris em Projeto Pentesileia – Treinamento para a Batalha Final.

Também cabe chamar atenção para outras iniciativas: de Dib Carneiro Neto e Rodrigo Audi pela organização do livro Imaginai! – O Teatro de Gabriel Villela, de Aury Porto pela idealização do livro Imersão na Selva; de Hanimais Estranhos e Projeto Beckett pela idealização de Em Cia. de Samuel Beckett; e de Marcus Malafaia pela concepção da Mostra Mundo Giramundo.

Destaques:

ADEUS, PALHAÇOS MORTOS – Nessa adaptação de Pequenos Trabalhos para Velhos Palhaços, do dramaturgo romeno Matei Visniec, José Roberto Jardim, diretor do espetáculo da Academia de Palhaços, desconstrói o perfeccionismo tecnológico a partir do qual, a princípio, o espetáculo parece ter sido erguido. As cenas se sucedem como quadros vivos dentro de um cubo.

UM BONDE CHAMADO DESEJO – Rafael Gomes procura lançar um olhar inquieto em relação à peça de Tennessee Williams. Maria Luísa Mendonça revela atuação de fôlego ao transitar com habilidade por estados emocionais diversos projetando, com sensibilidade, a extrema fragilidade de Blanche. Na cenografia, André Cortez concebe uma estrutura claustrofóbica que dimensiona a importância dos espaços reduzidos, compartimentados, para o acirramento do embate com a protagonista.

UMA ESPÉCIE DE ALASCA – A montagem de Gabriel Fontes Paiva para o texto de Harold Pinter impacta pela dramaturgia física evidenciada na interpretação minuciosa de Yara de Novaes para uma personagem deslocada no tempo. Certa indefinição temporal sobressai na cenografia, que situa os personagens em espaço desértico, cuja aridez é parcialmente minimizada pela evocação do mar.

O GRANDE SUCESSO – O autor e diretor Diego Fortes caminha em sentido contrário ao do perfeccionismo ao manter na encenação erros, interrupções, tombos, acidentes de percurso, reconstituindo com certa fidelidade o ambiente algo caótico dos bastidores de um teatro. Conjuga arte e vida ao revestir a encenação de artifícios não com o intuito de ostentá-los, mas de denunciar a falsidade da atuação.

LOVE, LOVE, LOVE – Nessa montagem do Grupo 3 de Teatro, conduzida por Eric Lenate, para o texto do britânico Mike Bartlett, as interpretações de Yara de Novaes, Debora Falabella e Rafael Primot se destacam. As mudanças nas vidas dos personagens decorrentes do curso do tempo são condensadas na cenografia de André Cortez, que resume variações comportamentais por meio das alterações realizadas num sofá e numa visualidade cada vez menos caótica e mais asséptica.

A SALA LARANJA: NO JARDIM DE INFÂNCIA – Nem tudo o que ocorre na creche onde se passa a ação da peça da argentina Victoria Hladilo é visto pelo espectador. O espectador é estimulado a realizar projeções de espaços invisíveis. Nessa montagem dirigida por Victor Garcia Peralta, os atores interpretam figuras tipificadas (a controladora, a zen, a histérica, etc.), ultrapassando, porém, esquematismos devido ao timing ajustado e ao entrosamento no palco.

SE MEU APARTAMENTO FALASSE – Ambientada nos anos 1960, a história de Neil Simon, encenada nesse novo musical da dupla Möeller/Botelho, destaca a solidão na cidade grande. A qualidade, evidenciada nas canções de Burt Bacharach, se estende ao elenco, a julgar pelos trabalhos de Marcelo Médici, Malu Rodrigues, Maria Clara Gueiros e André Dias.

SUASSUNA, O AUTO DO REINO DO SOL – Nessa encenação dirigida por Luiz Carlos Vasconcelos, o grupo Barca dos Corações Partidos mergulha no universo de Ariano Suassuna. O espetáculo esbanja criatividade nos figurinos de Kika Lopes e Heloisa Stockler. A música, resultado da parceria entre Chico César, Beto Lemos e Alfredo Del Penho, comprova a qualidade da homenagem. No elenco, não há como deixar de destacar as criações de Adrén Alves nas duas personagens femininas.

TOM NA FAZENDA – A montagem dirigida por Rodrigo Portella resulta de uma leitura personalizada da peça do canadense Michel Marc Bouchard, mas não impositiva em relação ao texto. Apesar de sinalizar o meio onde a história se desenrola (uma fazenda isolada), a cenografia de Aurora dos Campos intensifica a força primitiva que move os personagens. Conduzindo peça marcada por sucessão de embates, o diretor encaminha Armando Babaioff e Gustavo Vaz para um registro visceral.

ZECA PAGODINHO – UMA HISTÓRIA DE AMOR AO SAMBA – Gustavo Gasparani subverte o tradicional formato biográfico por meio de alguns procedimentos. Adota estruturação intencionalmente “caótica” ao invés de apresentar a trajetória do homenageado em ordem cronológica. O objetivo parece estar em priorizar a captação do universo do cantor, em especial no que se refere ao seu inquebrantável vínculo com o subúrbio, em detrimento da obrigação de oferecer ao público o passo a passo de uma jornada.

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Musical sobre Suassuna se destaca nas indicações do Shell

Suassuna – O Auto do Reino do Sol: seis indicações (Foto: Marcelo Rodolfo)

Autor Braulio Tavares (Suassuna – O Auto do Reino do Sol), Pedro Kosovski (Tripas)

Direção Luiz Carlos Vasconcelos (Suassuna – O Auto do Reino do Sol), Paulo de Moraes (Hamlet)

AtorAdrén Alves (Suassuna – O Auto do Reino do Sol), Ricardo Kosovski (Tripas)

AtrizGuida Vianna (Agosto), Letícia Isnard (Agosto), Juliane Bodini (Dançando no Escuro)

CenárioSérgio Marimba (Suassuna – O Auto do Reino do Sol), Carla Berri e Paulo de Moraes (Hamlet)

Figurino Kika Lopes e Heloisa Stockler (Suassuna – O Auto do Reino do Sol), Marcelo Olinto (Zeca Pagodinho: uma História de Amor ao Samba)

IluminaçãoManeco Quinderé (Hamlet), Paulo Cesar Medeiros (O Jornal)

Música Chico César, Beto Lemos e Alfredo Del Penho (Suassuna – O Auto do Reino do Sol), Marcelo Alonso Neves (Dançando no Escuro)

InovaçãoEscola Spetáculo (pelo contínuo trabalho de formação e inserção de jovens profissionais na área técnica das artes cênicas), espetáculo Tripas (pela forma de realização entre a universidade, através dos programas de pós-graduação, e a produção teatral).

 

Reverência ao humor e ao musical

Cena de Pagliacci, o espetáculo mais indicado no Prêmio do Humor (Foto: Pablo Barbuto)

Determinados prêmios de teatro são norteados pela valorização de certos gêneros ao invés da ambição de uma cobertura integral da cena. São os casos do Prêmio do Humor – que, como o próprio nome indica, é voltado para comédias – e do Prêmio Reverência – concebido com o intuito de destacar o musical. O primeiro, criado pelo ator Fabio Porchat, acaba de anunciar os indicados de sua segunda edição. O júri formado por Aloísio de Abreu, Antônio Pedro Tabet, Bemvindo Siqueira, Rafael Teixeira e Sura Berditchevsky contemplou Pagliacci, espetáculo da companhia La Mínima, em todas as categorias. O segundo, a cargo da produtora Antonia Prado, divulgou os premiados de sua terceira edição em cerimônia apresentada pelos atores Lucio Mauro Filho e Tiago Abravanel, no último dia 5, no Teatro Bradesco. Les Misérables, espetáculo de Laurence Connor e James Powell, saiu vitorioso, apesar de My Fair Lady, na versão de Jorge Takla, ter recebido o maior número de estatuetas.

Além de priorizarem gêneros específicos, os prêmios têm outras particularidades. O Reverência reúne produções do Rio de Janeiro e de São Paulo e é avaliado por um júri composto por integrantes das duas cidades – Abel Rocha, Ana Botafogo, Claudia Hamra, Daniel Schenker, Janice Botelho, Kika Sampaio, Lucia Camargo, Macksen Luiz, Maria Luísa Barsanelli, Miguel Arcanjo Prado, Mirna Rubim, Rafael Teixeira, Tania Brandão, Ubiratan Brasil e Wellington Nogueira. O júri é dividido em duas partes: uma escolhe os indicados e a outra, os vencedores. O do Humor concentra as indicações num número reduzido de categorias e reúne atores e atrizes numa única (performance).

Indicados ao Prêmio do Humor:

Peça – Karaokê – O Monólogo, Minha Vida em Marte, [nome do espetáculo], Pagliacci, A Produtora e a Gaivota, Sterblitch não tem um Talk Show

Direção – Chico Pelúcio (Pagliacci), Susana Garcia (Minha Vida em Marte), Tauã Delmiro ([nome do espetáculo])

Performance – Alexandre Lino (O Porteiro), Carla Candiotto (Pagliacci), Eduardo Sterblitch (Sterblitch não tem um Talk Show), Evelyn Castro (Karaokê – O Monólogo), Fernando Sampaio (Pagliacci), Ingrid Klug ([nome do espetáculo]), Jefferson Schroeder (A Produtora e a Gaivota), Mônica Martelli (Minha Vida em Marte)

Texto – Jefferson Schroeder (A Produtora e a Gaivota), Luís Alberto de Abreu (Pagliacci), Mônica Martelli (Minha Vida em Marte)

Categoria Especial – Caio Scot, Junio Duarte, Carol Berres, Luísa Vianna e Tauã Delmiro, pela versão brasileira do texto e das canções de [nome do espetáculo], Fernando Sampaio e Domingos Montagner pela concepção de Pagliacci, transpondo uma ópera clássica para o universo circense, Rodrigo Geribello, pelo trabalho de sonoplastia vocal em A Morte Acidental de um Anarquista

 Laila Garin, melhor atriz no Prêmio Reverência (Foto: Felipe Panfili)

Vencedores do Prêmio Reverência:

Espetáculo – Les Misérables

Direção – Jorge Takla (My Fair Lady)

Ator – Paulo Szot (My Fair Lady)

Atriz – Laila Garin (Gota d’água [a seco])

Ator Coadjuvante – Ivan Parente (Les Misérables)

Atriz Coadjuvante – Andrezza Massei (Les Misérables)

Autor – Fernanda Maia (Lembro Todo Dia de Você)

Cenário – Rogério Falcão (Cinderella)

Figurino – Fabio Namatame (My Fair Lady)

Iluminação – Maneco Quinderé (Cinderella)

Direção Musical – Alfredo Del-Penho e Beto Lemos (Auê)

Coreografia – Tania Nardini (My Fair Lady)

Design de Som – Tocko Michelazzo (My Fair Lady)

Categoria Especial Elenco da Cia. Barca dos Corações Partidos por Suassuna – O Auto do Reino do Sol e Auê

Registro reconhecível, mas não idêntico

Clarice Niskier em A Lista (Foto: Dalton Valério)

Existem pontos de aproximação e distanciamento entre A Lista, em cartaz no Centro Cultural Municipal Parque das Ruínas, e A Alma Imoral, célebre trabalho que vem sendo mostrado há 11 anos. Ambos seguem o formato do monólogo, foram concebidos pela mesma equipe central (a atriz Clarice Niskier e o diretor/supervisor Amir Haddad) e parecem norteados a partir de motivações pessoais (o elo personalizado com o judaísmo, o lugar dos vínculos afetivos em meio às demandas do cotidiano).

As duas encenações colocam o público diante de registros de atuação que se comunicam – em que pesem as mudanças. Em A Alma Imoral, Clarice Niskier assume postura transparente, realçada pelo desnudamento do corpo. Estabelece um diálogo direto, franco, com a plateia tanto ao trazer à tona inquietações próprias quanto ao investir numa estrutura aberta, a exemplo do momento em que atende pedidos dos espectadores e repete trechos do texto do rabino Nilton Bonder. A Lista começa com a presença transparente da atriz. Fora da personagem, ela recebe o público e diz brevemente que se sentiu afetada pela história que vai expor.

Quando a apresentação propriamente dita inicia, Niskier não altera o registro de modo brusco, mas conta com a proteção de uma capa ficcional (apesar do texto ser baseado em fatos reais), algo que não havia em A Alma Imoral. Agora, a atriz está interpretando uma personagem de maneira mais evidente, ainda que sua atuação soe desarmada, desconectada dos habituais códigos de representação – evocados, aliás, intencional e criticamente na passagem em que a personagem assiste a um filme melodramático.  Em todo caso, trata-se de uma atriz inserida nas circunstâncias específicas da personagem, transitando entre a narração comprometida e a vivência dos acontecimentos descortinados diante do público.

O texto da canadense Jennifer Tremblay revela, aos poucos, o seu foco: o questionamento da hierarquia de valores, a julgar pela tendência a privilegiar a praticidade, as urgências do dia a dia, em detrimento de um olhar mais cuidadoso para os mais próximos. A autora também credita essa desatenção a uma necessidade de se priorizar em meio a uma sufocante sobrecarga de obrigações domésticas. O texto ganha a cena de forma despojada, com reduzida quantidade de elementos (luminária, banco, cadeira de balança, cabideiro, cesta) compondo a cenografia de Luis Martins. O figurino de Kika Lopes é básico, mas acrescido de peças menos neutras ao longo da sessão, com expressivas soluções sintéticas, como a do pano transformado em manta, que lembram A Alma Imoral.

Os parentescos e as diferenças entre A Lista e o A Alma Imoral sugerem uma coerência e, por outro lado, uma preocupação em não estagnar.

Lembranças de uma atriz única

Assisti a poucos espetáculos com Eva Todor no teatro – só Como se Tornar uma Supermãe em Apenas Dez Lições, peça de Paul Fucks encenada por Wolf Maya, e A Pequena Mártir de Cristo Rei, texto Maria Carmem Barbosa e Miguel Falabella com direção de Falabella – porque o início da minha vida de espectador coincidiu com o momento em que ela começava a se afastar dos palcos. Seu segundo marido, Paulo Nolding, havia morrido. E os maridos foram determinantes na construção e no cálculo da carreira de Eva no teatro – antes de Nolding, Luis Iglesias, com quem fundou a Cia. Eva e seus Artistas, sediada no Teatro Serrador entre 1940 e 1963, e criou o chamado gênero Eva, referente a personagens levemente deslocadas da realidade e repletas de charme e frescor. Como no cinema sua presença era rara (ainda que não haja como esquecer da antológica cena do espelho que protagonizou ao lado de Oscarito em Os Dois Ladrões, filme de 1960, a cargo de Carlos Manga), passei a acompanhá-la na televisão, veículo onde despontou tardiamente – primeiro com o programa As Aventuras de Eva e depois na novela Locomotivas, de Cassiano Gabus Mendes –, a partir do final dos anos 80, em novelas como Top Model, de Walther Negrão e Antonio Calmon, e O Cravo e a Rosa, de Walcyr Carrasco e Mario Teixeira, e minisséries como Hilda Furacão, de Glória Perez.

Percebi que Eva não é “apenas” uma atriz de personalidade específica, mas uma exceção na história do teatro brasileiro. Húngara, começou a fazer balé aos quatro anos e, ao desembarcar no Brasil, passou a ter aulas com Maria Olenewa no Theatro Municipal. Ingressou no teatro brasileiro antes do advento da cena moderna – implantada no Brasil com a fundação das companhias Teatro Brasileiro de Comédia e Teatro Popular de Arte, ambas em 1948, marcadas pelas contribuições revolucionárias dos encenadores estrangeiros, alguns já trabalhando com os grupos amadores. Diferentemente do que aconteceu com outros primeiros atores, Eva não caiu no ostracismo. Atravessou fronteiras – fez temporadas na Europa (Portugal) e na África – e se manteve em alta sem investir de maneira contundente num projeto de mudança de repertório, apesar de ter interpretado personagens não tão próximas de sua linha característica, casos de Senhora da Boca do Lixo, de Jorge Andrade, e O Efeito dos Raios Gama nas Margaridas do Campo, de Paul Zindel. Talvez porque, ao contrário da maioria, ela tenha conseguido, a cada atuação, imprimir a sua conhecida assinatura com notável perfume de novidade. Sua morte – no último domingo, aos 98 anos – deixa um travo especialmente amargo. Afinal, Eva Todor é única.

Em questão, a validade da trama

Savio Moll e Helena Varvaki em O Princípio de Arquimedes (Foto: Daniel Dias da Silva)

O Princípio de Arquimedes, texto do catalão Josep Maria Miró, lembra, em certa medida, Dúvida, do americano John Patrick Shanley. Na peça de Shanley, ambientada no Bronx da década de 1960, uma freira, Aloysius, acusa, de modo determinado, um padre, Brendan, de haver molestado um menino, enquanto que na de Miró a diretora de uma academia de natação, Ana, recebe a denúncia de que um dos professores, Rubens, teria se aproximado de forma inapropriada de um de seus alunos, uma criança. Ambos os textos falam de condenações instantâneas, assunto relevante atualmente.

Por meio de Aloysius, Shanley expos a cegueira da certeza, a dificuldade para assumir um estado de dúvida. Miró mostra a exasperação diante da dúvida e a estende para além do término da sessão. Não resolve a trama. É uma estratégia empregada com o intuito de sinalizar para o espectador que o fundamental não está na solução do mistério (há, pelo menos, outro na história: a morte do filho de Ana), e sim nas questões suscitadas a partir dele. Trata-se de um recurso conhecido, algo gasto, mesmo que ocasionalmente praticado de maneira desestabilizadora – por exemplo, em Caché (2005), filme de Michael Haneke.

Mas, apesar do final inconcluso, talvez Miró não seja tão imparcial em relação à problemática que apresenta. O autor dá a impressão de que deseja chamar atenção para o afeto na conexão entre professor-aluno, elemento essencial para o aprendizado, mas tensionado nos dias de hoje devido, de um lado, à preocupação diante do lugar de extrema fragilidade das crianças em situações abusivas e, de outro, a uma onda conservadora num momento do mundo menos libertário que os anos 1970. Essa “mensagem” se tornaria mais evidente se a peça enveredasse por um dos dois desfechos: a inocência de Rubens. Em contrapartida, se o personagem se revelasse culpado, O Princípio de Arquimedes ficaria quase limitado à função de alertar para um grave risco. Nesse caso, a importância moral, ética, se sobreporia à consistência artística.

A elucidação da trama – ou a adesão, desde o começo, a um dos pontos de vista da história – geraria, a princípio, uma diminuição nas possibilidades de interpretação do texto, uma impossibilidade de relativizar os fatos. É o que Miró, interessado em oferecer ao espectador uma abertura de leitura, não queria. Mas a adoção de uma abordagem mais concreta, até definitiva no que se refere ao episódio em si, não resultaria necessariamente reducionista. Poderia, ao contrário, levar a uma verticalização da reflexão proposta.

Diretor da montagem, que cumpriu temporada no Sesc Tijuca e acabou de estrear nova no Centro Cultural dos Correios, e responsável pela tradução, Daniel Dias da Silva procura manter fidelidade ao enigma lançado pelo texto e valoriza percepções distintas em relação à história ao fornecer ao espectador perspectivas diversas por meio de uma inversão da disposição cenográfica do vestiário da academia (cenário de Cláudio Bittencourt). Em dado instante, o público assiste à cena a partir de um ângulo diferente, alteração propiciada pela mudança de posição de uma suposta câmera.

Através dessa artimanha, o diretor (em sintonia com o dramaturgo) sugere que um acontecimento pode ganhar percepções variadas, de acordo com a ótica do observador. A influência cinematográfica vem à tona ainda na estrutura do texto. Miró investe no procedimento da montagem ao suprimir trechos do enredo para depois voltar e preenchê-los. Vale mencionar que O Princípio de Arquimedes rendeu uma recente adaptação para o cinema, intitulada Aos Teus Olhos, a cargo de Carolina Jabor.

A cena não soa tão contundente como a história, de início, faria prever – observação que não deve ser considerada como demérito. Há um registro em tom menor que atravessa o espetáculo, tanto no que diz respeito à iluminação de Wallace Furtado, que destaca passagens mais intimistas, quanto aos trabalhos dos atores. A tensão concentrada de Ana, que se manifesta na pressão que exerce sobre Rubens para obter respostas e no convívio ríspido com Heitor, o outro professor, é realçada na atuação contida de Helena Varvaki. Cirillo Luna projeta os mecanismos de defesa e o nervosismo crescente de Rubens diante da denúncia. Gustavo Wabner dá vazão à postura ambígua de Heitor. Savio Moll, como David, o pai que faz a denúncia contra Rubens, estabelece boa contracena com a personagem de Varvaki na hora do embate.

O Princípio de Arquimedes possui um potencial de polêmica que permanece preservado nessa montagem.

Prêmio Cesgranrio: Musical sobre Zeca Pagodinho lidera indicações do segundo semestre

Zeca Pagodinho – Uma História de Amor ao Samba: oito indicações (Foto: Renato Mangolin)

Zeca Pagodinho – Uma História de Amor ao Samba, musical de Gustavo Gasparani, lidera o número de indicações (oito) do segundo semestre ao Prêmio Cesgranrio. O júri – formado por Carolina Virguez, Daniel Schenker, Jacqueline Laurence, Lionel Fischer, Macksen Luiz, Rafael Teixeira e Tania Brandão – também contemplou outros espetáculos, como Guanabara Canibal, montagem d’Aquela Cia., dirigida por Marco André Nunes, Tripas, monólogo com Ricardo Kosovski assinado por seu filho, Pedro Kosovski, O Jornal, peça de Chris Urch dirigida por Kiko Mascarenhas, Festa de Aniversário, nova visita à obra de Harold Pinter sob a condução de Gustavo Paso, Euforia, solo de Michel Blois com direção de Victor Garcia Peralta, e Dançando no Escuro, adaptação do filme de Lars Von Trier que desembarcou no palco em espetáculo a cargo de Dani Barros. A cerimônia de premiação, marcada para 30 de janeiro, terá como homenageado o ator Antonio Fagundes.

Indicados:

ESPETÁCULO – O Jornal, Tripas, Zeca Pagodinho – Uma História de Amor ao Samba

DIREÇÃO – Gustavo Gasparani (Zeca Pagodinho – Uma História de Amor ao Samba), Marco André Nunes (Guanabara Canibal), Pedro Kosovski (Tripas)

ATRIZ – Andréa Dantas (Festa de Aniversário), Guida Vianna (Agosto), Isabel Cavalcanti (A Sala Laranja)

ATOR – Mario Borges (Doce Pássaro da Juventude), Michel Blois (Euforia), Ricardo Kosovski (Tripas)

ATRIZ EM MUSICAL – Soraya Ravenle (Puro Ney), Juliane Bodini (Dançando no Escuro)

ATOR EM MUSICAL – Édio Nunes (Kid Morengueira), Gustavo Gasparani (Zeca Pagodinho – Uma História de Amor ao Samba), Hugo Bonemer (Ayrton Senna – O Musical)

DIREÇÃO MUSICAL – João Callado (Zeca Pagodinho – Uma História de Amor ao Samba), Marcelo Alonso Neves (Dançando no Escuro)

TEXTO – Gustavo Gasparani (Zeca Pagodinho – Uma História de Amor ao Samba), Julia Spadaccini (Euforia), Pedro Kosovski (Guanabara Canibal)

CENOGRAFIA – Gringo Cardia (Zeca Pagodinho – Uma História de Amor ao Samba), Lidia Kosovski (Tripas), Marcelo Marques e Marco André Nunes (Guanabara Canibal)

FIGURINO – Marcelo Olinto (Zeca Pagodinho – Uma História de Amor ao Samba), Marcelo Marques e Carlos Petit (Guanabara Canibal), Mauro Leite (Estes Fantasmas)

ILUMINAÇÃO – Bernardo Lorga (Festa de Aniversário), Paulo Cesar Medeiros (O Jornal), Renato Machado (Guanabara Canibal)

ESPECIAL – Companhia dos Atores e Ivan Sugahara (pela manutenção da Sede das Cias.), Renato Vieira (pela coreografia e direção de movimento de Zeca Pagodinho – Uma História de Amor ao Samba), Roberto Guimarães (por sua atuação como programador do teatro Oi Futuro)